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24 de dezembro de 2011

Fundamentalismo religioso


     Durante uma aula na pacata escola em que trabalho, um aluno interpelou-me com uma espécie de reclamação sobre outra professora que ousou falar um absurdo. Fiquei bastante chateado com o que ouvi. Era algo como um tratado contra o absurdo de se estudar este assunto patético e fantasioso que era a citologia. O maravilhoso mundo das células, do qual sou embaixador. Foi um amor à primeira vista, diferente da crase, quando posso contorno-a sem remorso, quando descobri este ramo de estudo da biologia.


     Uma propriedade fundamental de conjuntos infinitos que, de forma grosseira, pode ser definida como uma bela relação entre cada fragmento e o todo. Quando descobri que nossas células funcionam como pequenos corpos, com seu sistema digestório e respiratório, cheguei a conclusão que o corpo humano mantém esta propriedade de um conjunto infinito! Claro que ainda de forma grosseira, mas faz-nos pensar.


     Este aluno colocava uma das mãos na testa enquanto ainda fazia movimentos de desaprovação enquanto sentava sobre uma das mesas daquela que fora sua sala de aula durante o último ano. Estávamos fechando aproximadamente 230 horas/aula naquele dia. Acompanhado de um outro colega que estava em um mesmo nível de desaprovação, apenas por ter uma voz fanha e aguda, mantinha-se em silêncio. Até que o menino sentado sobre a mesa soltou entre os dentes a seguinte afirmação:


     - Absurdo! Essa mulher está louca! Que célula o quê, somos feitos de barro, tá na bíblia!


     Eu fiquei impressionado com a ignorância desta construção frasal. Tentei argumentar.


     - Não, professor, tá na bíblia!


     Não entendo o motivo pelo qual consideram matemática uma ciência inflexível e intolerante. Afinal as vidas destes dois é regida por sofismas dogmatizados. Nisso se vê o perigo da religião que remove o senso crítico e torna seus seguidores em corpos sem vida, acéfalos.


     Sim, existem pessoas neste mundo que são mais inteligentes do que nós. O que me entristece é que a grande maioria da população não consegue perceber a diferença entre fatos e fantasias. Estes serão facilmente enganados por qualquer um, se já não estão sendo. Usarão matemática para calcular os dez por cento do dízimo, pelo menos.


13 de dezembro de 2011

Tenho chance?



     Algo que irei celebrar, que carregarei comigo por toda a vida, que usarei como exemplo sempre que puder, é a reação de um aluno quando, depois de uma afirmação, me fez uma pergunta e fui sincero.



- Professor, falei com minha avó sobre meu comportamento e minhas notas e ela vem falar com o senhor ainda hoje.
- Querido, é cinco de dezembro. Não tenho mais assunto com nenhum dos teus parentes.
- Mas, professor, tenho chance de passar?
- Não.



     Matemática é uma ciência que prevê o futuro. O desempenho no primeiro período indica o comportamento nos outros.


     Matemática é a ciência que tange a realidade. Ou que a contorna. Ou atravessa a rua para que não sejam vistas juntas.


9 de dezembro de 2011

Separando tudo até a última ponta.


     Percebo uma certa revolta em jovens profissionais da educação quando suas disciplinas são desmerecidas em relação ao eixo "língua portuguesa - matemática". E os mais velhos acabam por associar-se a um dos professores destas duas disciplinas quando pretendem argumentar algo. Seja lógica, organização ou coesão de respostas, é razoável esse tipo de ligação. Um transtorno global do desenvolvimento precisa deixar evidências em todas as atividades, afinal é um transtorno global.


     Assisti uma palestra sobre educação física na infância, com o objetivo clássico dessa disciplina: trabalhar comportamento, limites, cooperação, saúde e diversão. Por fim o palestrante deixou transparecer sua insatisfação da inexistência desse tipo de serviço, do profissional da área, em todas as escolas infantis. Inclusive sua companheira de apresentação mostrou-se bastante infeliz por não haver este cuidado, de uma vida saudável desde a pequena idade e o desmerecimento do mesmo na educação básica.


     Como sou um adepto da vida sedentária, não tenho um grande argumento e lição sobre exercícios físicos. Não nos damos bem. Hoje sou obrigado, mas a vida corrida moderna me obriga a permanecer imóvel. Ainda cumpro minha promessa de exercitar-me. Por enquanto não.


     Um dia claro de inverno, estava eu na sala dos professores da escola em que trabalho quando a colega, ponta oposta do eixo, expôs a suspeita que determinado aluno portasse alguma deficiência cognitiva. Para quem não é do corpo docente, não sabe que isso é parte de uma piada pronta, afinal alguns cérebros parece funcionar apenas nas últimas semanas do ano, quando o desespero é maior do que a arrogância.


     Passei um tempo observando o indivíduo e pude constatar que este não produz material suficiente para ser aprovado. E desde o início havia notado isso, apenas nunca havia cogitado a possibilidade de estar expondo uma pessoa com dificuldades reais de aprendizado ao meu método caótico de ensino.


     O global, de transtorno global do desenvolvimento deste menino, passou a ser questionado no momento em que tive a maravilhosa (e nada original) ideia de conversar com outros professores. A titular da disciplina de educação física me deu a revelação. Enquanto ela falava eu agradecia não ser professor de física, constantemente confundidos com aqueles modelos das propagandas de pasta de dente, da educação física. A mulher disse que o menino em questão participava ativamente dos jogos propostos, sabia comportar-se perante os outros, negociava, seguia as regras, exigia o mesmo dos colegas, ou seja, era como uma criança comum, para não dizer normal.


     Muitos acabam se decepcionando com determinadas ciências pela forma com que é apresentada. Ou pelo confronto de humores com o docente responsável. Procuro deixar clara a diferença entre a matemática e minha personalidade. Procuro apresentar a ciência da forma mais agradável possível. Sou aquela pessoa que procura arranjar namorados para uma amiga um tanto distante e intolerante. Tento vender suas características mais agradáveis como seu senso de justiça e humor peculiar.


     Mesmo assim, este meu aluno, não apreciador da matemática confesso, aparenta realmente ter algum distúrbio. Mas não é nada que impeça-o de concluir e entregar os trabalhinhos propostos. Isso ele não faz. O que posso deduzir? Que este tem um problema muito sério comum aos jovens: desinteresse. Infelizmente não há o que posso fazer para chamar mais a atenção destes.


     O que me preocupa muito é essa indisposição do corpo docente de se conhecer e saber o que cada membro pensa. Suas perspectivas e frustrações. Um corpo vivente com partes autônomas. Cada um puxa para um lado diferente. Assim estamos formando uma nação de esquizofrênicos.


4 de dezembro de 2011

Conto: Para Lela


Nascemos na mesma maternidade, no mesmo dia, na mesma hora. Parece início daquelas histórias de amor onde tudo conspira para que um casal permaneça junto. Mas não é bem assim em todos os casos. Lela, escrevo esta carta para sua pessoa, para que saiba que, apesar de todas as adversidades que passamos juntos, nenhuma foi pior do que a nossa distância.


O curioso que, provavelmente você também deve ter notado, é que exatamente o que ocorre comigo, ocorre contigo. Não sei exatamente como passei a perceber sua existência se nunca nos falamos, nunca nos tocamos ou trocamos telefone. Inclusive nossa existência se confunde. Podem dizer que eu sou um cara mais radical, tendendo mais para a esquerda, mas no mundo de hoje não existe mais grande diferença. Pelo menos não em nosso país.


Sim, nossa existência se confunde. Fizemos o mesmo curso na mesma universidade, estivemos nos mesmos seminários e palestras. Assistimos os mesmos filmes nos mesmos cinemas. Não acredito, conforme escrevo menos real parece, mas é. Como se vivêssemos em planos diferentes, mas não. Na verdade, sinto como se dividíssemos o mesmo plano, exatamente ao meio. E isso me deixa infeliz. Saber que fomos feitos não um para o outro. Mas para andarmos em nossos caminhos tortuosos eternamente separados.


Não sei dizer se te amo. Afinal, sois a única que não conheço. Todas as outras eu já vi, conversei, andei um pouco, mas você me intriga, exatamente por ser a que não conheço. E isso mexe com nossa imaginação. Todas as minhas frustrações com os outros, deposito em sua existência a perfeição. Espero que sejas realmente sublime, superior, perfeita... Lela, desculpa se parece que estou sendo um tanto invasivo, mas não consigo entender... Precisamos marcar um encontro, por favor.


Realmente, deve estar se perguntando como sei que existe se estamos exatamente separados, e nunca nos encontramos no passado. Gosto de experimentar coisas, andei descobrindo umas novas técnicas, andei visitando outras cidades, descobri que o mundo não é plano. Até a origem dele é incerta. Apenas prevemos, uma coisa de cientistas, que fica mais pra lá ou mais pra cá. A única coisa certa, é que não nos veremos. Não nesta vida. Mas, pelo que entendi, em uma outra, talvez, poderemos até ser amigos. E poderei encerrar todas as minhas dúvidas.


Se bem, pelo que aprendi, metade das minhas dúvidas posso encerrar perguntando, sinceramente, a mim mesmo. Sim. Somos a mesma pessoa. Apenas afastados um pouco. Mas não para sempre. Inclusive, no "sempre", estaremos de mãos dadas. Aí sim, pelo sempre. Pelo infinito. Não se preocupe, doutor Tales disse que há uma razão nisso. Inclusive naquelas coisas que acontecem comigo e com você, simultaneamente.


Sempre suspeitei da sua existência. Afinal, devem haver pontos que não posso prever em minha vida. Sou um ser vivente, não sou perfeito. Alguma coisa escapou da minha observação. Mas, se tudo isso for verdade, o que acontece contigo, acontece comigo. E reajo da mesma forma. Por dentro e por fora. Apesar de não querer que fique triste por todas aquelas coisas que me deixam triste, não posso fazer nada. Pelo menos, sei que alguém chora comigo. E com você, pode ter certeza, choro junto a cada falha.


Cuide-se, Lela.


Eternamente longe, mas seu


Lelo.


30 de novembro de 2011

Herdeiros da terra



     Apesar de não haver uma resposta de todo o grupo, sou responsável da educação matemática de indivíduos bastante heterogêneos e desmotivados. Ou seja, praticamente o perfil de todo o ensino fundamental em todas as escolas que visitei, trabalhei, observei ou ouvi falarem. Estamos em um momento especial, do qual futuras gerações agradecerão ou apagarão de suas memórias. Depende do que faremos para modificar nossa realidade.


     Creio que todos saibam que um polígono, palavra herdada que significa "muitas aberturas" ou "muitos ângulos", é uma figura geométrica que obedece a uma lei: espaço limitado por segmentos de reta. Ou seja, será uma figura com os lados "retos" e sem "furos". A forma com que se trabalha este tipo de conceito pode facilitar a compreensão da geometria euclidiana. Palitos em punhos, a atividade consistia em construir estes entes com o material.


     Ao longo da vida, precisamos lidar com a perda e o ganho. Parte desta perda pode ser amortecida com nossa capacidade de negociar. Creio que se um indivíduo deixa a escola com a capacidade plena de negociar, esta cumpriu sua meta social. Quando se negocia, se pondera valores, considera-se argumentos e tudo culmina em tomadas de opinião. Comprar ou não comprar, ter um filho ou não, casar-se ou apenas esperar um pouco mais são assuntos que podem ser transformados facilmente em um debate, pois geralmente envolvem o ganho ou perda de uma outra pessoa.


     Apenas um palito cada aluno recebeu. Obviamente o primeiro desafio foi descobrir como fazer um polígono de um único lado. Em seguida, os mais adiantados, já se reuniam em trios, já que o polígono com menor número de lados seria um triângulo. Quando propus aumentar o número de lados, naturalmente foram negociando os lados pertencentes aos colegas. Por fim tínhamos duas grandes figuras, mas a exigência agora fazia com que pudesse existir apenas uma. Houve uma guerra. Toda a diplomacia exercida até então precisava ser revista. Conforme a atividade se desenrolou, percebeu-se que apenas os bons negociantes e estrategistas, apesar da atividade simples, ficaram até o fim com suas vontades satisfeitas.


     Percebi que, apesar da luta, todos entristeciam quando percebiam que seu palito acabaria fazendo parte da figura singular, que representaria toda a turma. Como se tomados por uma doença, entregavam-se ao intento do grupo. Toda a força do pequeno corpo do último possuidor de um dos lados do um polígono, fazia força para não entregar seu tesouro. Mas o coletivo vencia. Coletivo controlado por estes agentes caóticos, os diplomatas e estrategistas.


     Estes seres especiais herdarão os reinos da terra.


26 de novembro de 2011

Verdade vos libertará


     Associa-se muito verdade ao conhecimento. O segundo lhe dá mais chances de compreender como o mundo funciona, a condição humana e, até mesmo, a liberdade. O que se espera de uma pessoa que tenha dedicada sua vida aos estudos, ao entendimento da realidade?


     Uma frase encontrada sob várias roupagens, é a que está exposta no título deste texto. Significa nada mais do que a verdade é o meio através somos liberados, mas precisa-se entender o que é essa tal liberdade. Palavras são por definição núcleos de conceitos, alguns mais fortemente debatidos como as duas presentes.


     O que pode ser verdade? O que significa verdade? Existe alguma absoluta e íntegra ou é uma colcha de retalhos baseada nas perspectivas de quem pensa sobre? Podemos perceber que uma verdade próxima da absoluta existe em diversas agremiações humanas, seja de cunho filosófico-religiosa ou política, é conhecida e frequentemente repetida, por muitas vezes compõe hinos ou temas. Poderia ser a verdade, se existe, maleável desta forma?


     Liberdade é um tema polêmico. Afinal pode-se argumentar ter a liberdade de ser idêntico aos outros. Como um "fique igual ou morra tentando". É claro que existe essa possibilidade. Mas, conforme a ciência avança, prova que se existe algo limitado, é a imaginação da maioria. É como não conseguir imaginar que a internet seja acessada por pessoas com deficiência visual.


     Conheci uma pessoa que, por odiar uma determinada disciplina, escreveu um livro denegrindo o esteriótipo dos professores desta. O fato deste indivíduo ser um especialista em educação em geral, não lhe dá um salvo-conduto para tal feito. Pelo contrário. O problema se dá quando não há uma relação boa com os professores, e se transfere a responsabilidade para a disciplina. Ou quando temos professores mal preparados para ensinar-nos as ciências, rigorosas como são.


     Não perdemos tempo buscando um significado pessoal para verdade e liberdade. Perdemos tempo quando não compreendemos o espírito de nosso tempo, quando não nos livramos das mágoas do passado, quando não exercitamos olhar fora da caixa.


21 de novembro de 2011

Eu escolho a liberdade.


     Como sabem, minha preferência por um vestuário alternativo faz com que meu gosto estético seja bastante questionado. Sempre gostei de roupas que beiram o utilitarismo. Estar bem vestido, ao meu ver, é estar confortável. Ainda fundo uma religião onde o sacerdote precisa vestir-se de forma alternativa. Se bem que existem várias, mas nem em todas tenho o acesso aos cofres. Se fosse minha, o cofre seria meu.


     Não tenho aquele problema, comum aos seguidores de religiões monetárias, com o dinheiro da instituição. Não encerrei este capítulo de minha vida por causa de dinheiro. Quer dizer, não só por causa disso. Não consigo permanecer em um lugar onde o dinheiro fala mais alto. Ou seja, não pertenço a este mundo. Assim como significa possibilidades abstratas, não quer dizer que ao pagar por uma aula particular, somos donos do professor. Não mesmo. Assim como se suportamos alguma instituição de caridade, não significa que somos donos desta. Cada um tem seus próprios demônios e respondem aos seus próprios desígnios morais. Não tenho fé em justiça, principalmente se esta vier depois da vida. Se isso é verdadeiro, naturalmente se torna injusta.


     Como sempre fui uma pessoa que procurava os motivos pelos quais as coisas acontecem, e exagerado, acabei por descobrir como muita coisa acontece. Grande parte do que se diz responsabilidade de algum espírito é, na realidade, um bom esquema de informações bastante humano. Tenho conceitos estereotipados de cada pessoa quando revelam sua orientação religiosa, mesmo que adormecidas. Dificilmente erro. Mas reconheço quando alguma pessoa manifesta uma ponta de sinceridade. Não desmereço religião alguma, desde que dê o conforto que a pessoa procura. O que detesto, como já disse, é o proselitismo. Isso é doentio.


     Tornei-me uma espécie de questionador de tradições. Nisso não há instituição que gostaria de me manter, afinal toda instituição prova seu valor na tradição. Hoje quase ninguém faz algo realmente sincero. Por não haver um produto novo no mercado, todos se baseiam no que já foram. No que fizeram no passado. Matemática é uma ciência cruel em relação a isso. É praticamente a religião da lógica. É isso, sou crente na lógica. Apesar disso fazer muito pouco sentido.


     Minha mãe nunca determinou o que eu deveria ser quando crescer. Creio que fui traumatizado ao contrário a fazer qualquer coisa. Ela sempre disse isso, que eu faria qualquer coisa que quisesse. O problema era saber o que queria. Até hoje não acertei, mas também não tenho pressa. A história religiosa de minha mãe é daquelas de escritores de best-sellers de livros com esta temática. Não, realmente é melhor. Outro dia ela, inocentemente, perguntou se eu não gostaria de me tornar padre. Sinceramente? Seria ótimo. Quer desculpa melhor para sair com roupas espalhafatosas e ainda mais ser respeitadíssimo/temido por todos? Bem que eu queria.


     Desculpe. Mas eu não acredito. Apesar de um pouco de descrença seja fundamental para um clérigo (sim, eu sei do que estou falando), não tenho, pelo menos ainda, aquela sede por controle. Prefiro a liberdade. E isso, só através da educação. E tem como libertar a todos?


15 de novembro de 2011

Pensamento crítico e números anônimos.


     Quem ainda não sabe, até o fim deste ano ao menos, sou professor de matemática de ensino fundamental. Minhas idéias sobre o currículo da escola difere do que penso ser realmente importante. Por exemplo, não houve quem discordasse que é importante saber o perigo do crediário. O problema se dá quando a disciplina é a grande responsável pela desaprovação. O vulgar "rodar de ano". Na minha concepção, o ciclo é o que há de mais próximo do desenvolvimento. 

     Tenho um aluno que, como eu digo, é um balão murcho. É como se fosse um homem miniatura que apenas irá inflar e tornar-se um homem. Colocou piercing no lábio inferior com o auxílio de uma bebida alcoólica e uma batata, segundo ele. Durante um dos testes aplicados, não respondeu aos estímulos. Ou seja, não soube abstrair as informações importantes de alguns dos problemas propostos. Estamos criando uma geração de pessoas que não sabe ler, muito menos interpretar.




Sene- Sene- Sene- Sene- Senegâmbia
     "A Senegâmbia, confederação formada em 1982 entre Senegal e Gâmbia, dois países africanos vizinhos, continha aproximadamente 208.005 km². Quando foi dissolvida em 1989, os dois países voltaram ao formato original. Sabendo que Gâmbia ocupava apenas um quinze avos da extensão territorial da confederação, calcule: a) A extensão territorial do Senegal; b) A extensão terrotorial da Gâmbia."




     Apesar de aparentemente complexo, é uma operação simples disfarçada. Meus alunos já entraram em contato com números maiores do que centenas de milhares, frações de quantidades e espaços, sistema métrico internacional e frações de denominadores até 25. Apesar de que pode parecer para um leitor sonolento que a solução é impossível, tenho certeza que durante uns três anos de sua vida no ensino fundamental, fizeste coisas semelhantes só que anônimas. Não existiam países se dividindo. Apenas números sem sentido.


DANGER!
     Uma pessoa cautelosa o suficiente para provocar uma lesão em uma área sensível e vascularizada como os lábios, com pouco mais de uma década de vida, é muito capaz de não entender exatamente o seu papel na sociedade. Dificilmente será capaz de não se deixar enganar por pesquisas eleitorais maldosamente inexplicados, por vendedores que podem invadir sua área e provar que mesmo sem completar um salário mínimo, pode contrair dívidas exorbitantes (desde que pague a entrada). Outros fatores pesam contra ele. O futuro não é deste. Infelizmente.



     Números sem nomes não existem. Grandezas abstratas não tem função social, senão a lúdica. Toda evolução científica que pode ser representada pela matemática, se não tem nome, é batizado de imediato. Eu pessoalmente chamo os números de nomes e seus atributos como sobrenomes. Oito quilômetros quadrados, sete litros, trinta newtons. Vivemos em um momento onde saber fazer quatorze quintos de duzentos e oito mil e cinco não é mais o suficiente. É preciso saber dizer o sobrenome.




     Há lugar para todos no mundo. Apenas que os lugares mais sofridos estão reservados para quem não sabe ser verdadeiramente crítico. Matemática, se absolutamente abstrata, serve para ensinar o pensamento crítico. Furar a boca com um grampo, conhaque e uma batata não parece um procedimento crítico.


13 de novembro de 2011

Conto: Amigo imaginário.


     Não era difícil entender que queriam falar comigo. Difícil era entender o motivo pelo qual não entendiam minhas respostas. Você sabe, não? Falei de você para eles, mas não acreditaram. Por que não acreditam em você? Disseram que era imaginário mas minha mente não é tão boa assim. É mais fácil eu ser o imaginário. E não sou? O que prova que sou real pode ser muito bem usado contra mim. Eles não param quando quero. Estou farto de comer e dormir. Mas não querem me ouvir. Imaginário? Você é muito mais real do que eu.


     Qual o problema em não querer sair? Tudo que preciso tenho aqui dentro: eu, você, comida, e você. Querem que eu interaja com outras crianças, mas nem sei o que isso significa. Se era para brincar com eles, não consigo. Eles não me entendem. Prefiro brincar com você. Estamos em uma sintonia que apenas nós dois entendemos. Quando sou o pirata, você se torna o mar, os peixes, o mundo... Para quê precisaria de outras crianças? Elas nem me entendem. Nem querem brincar comigo. Não reclamo, também não quero brincar com elas. Apenas contigo.


     Doutor Alcides, como chamou meu irmão, pediu que eu desenhasse em um quadro. Não sei o que ele queria. Apenas ouvi o que você disse, e fiz o rio daquela história que ouvimos. Não sei o motivo que levou o doutor a ficar bravo. Não pode ter sido o fato que aquilo era um rio vermelho. Afinal rios vermelhos, não existem nesse mundo, apenas no nosso. Ah, como eu queria ser o imaginário. Como eu tenho um pensamento limitado... Deveria ter pintado de verde.


     Começaram a me dar umas balas de gosto estranho. Dividi todas elas contigo, mas tu é mais esperto do que eu, não as comeu. Não sabe como elas fazem mal. Bem lembrado, vou tirá-las do seu pote secreto, não quero que as coma. Não fique triste comigo. Eu juro que tentei não deixar tudo aquilo acontecer. Não gosto de chá, mas tomo todas as vezes que me dão. Sinto que é a parte mais próxima de me entenderem que todos nesta casa chegam. Não quero a atenção deles, mas preciso. Não sei mais quem sou. Você é meu único amigo.


     Querido, eu gostaria de poder te dizer pessoalmente, mas desde quando os doces mudaram de nome, quando me obrigaram a ir em um lugar barulhento e cheio de gente, quando exigiam que eu ficasse horas e mais horas escrevendo coisas sem sentido, desejei que tivesse sido eu quem sumiu. Desejei profundamente que eu fosse o imaginário. E desde então tenho sido cada vez mais infeliz. Principalmente agora, que todos que eu amo, me abandonaram. Primeiro você e depois meu tio. Ah, desculpe, deixe eu esclarecer. Eu lhe abandonei. Juro que não tomo mais aqueles remédios. Só se você prometer aparecer. Naquele lugar ninguém me entende.


     Aquela vez que você sumiu, logo depois de nosso experimento com a tomada e aqueles fios que achamos no porão, foram os dias mais tristes da minha vida. Pensando bem, estamos quites, afinal cada um deixou o outro pelo menos uma vez. Pode voltar já. Eu fiquei realmente triste quando vi todos chorando ao pé da cama no hospital. Todos achavam que eu havia tentado deixar minha própria vida... Deixar ela para quem? Será que alguém estava pensando em tomar a minha e deixar a sua própria vaga? Eu nunca. Se tem algo a ver com os fios que queimaram, eu não sei como, mas posso encontrar outros para repor.


     Dizem que meu caso é complexo. Complexo tudo é na vida. Pelo menos na minha tudo tem sido. Não consigo me relacionar bem com meus irmãos, dizem que tenho os dois pés fora da realidade. Nem eu sei o que isso significa, apenas queria fazer parte do que eles são. Tentaram me incluir várias vezes, talvez o erro seja meu, de não querer. Parte de mim quer, outra não. Tentam traduzir o que eu digo uns para os outros, eu os ouço durante a noite conversando sobre o que fazer comigo. Eles têm medos absurdos. Eles temem o fato de que eu tenha medo do mundo real. Eu não tenho medo, este mundo me é muito bem conhecido. Só que não faço parte dele.


     Ah, esqueça. Acabei de ver que você esteve o tempo todo dormindo embaixo da escada. Esqueça tudo que eu disse. Vamos brincar de esquimós, no círculo polar? Eu pego o cobertor para fazer o iglu. Mas de tudo isso, quero que saiba que nunca vou me separar de você.


10 de novembro de 2011

Associação livre ou "o dia que fui avô"


     Freud não estava de todo errado. Inclusive, do pouco que li sobre psicanálise e dele, discordamos pouco. Mesmo achando Jung mais simpático. Em pensar que na virada do século XIX, algumas universidades respeitadas mantinham no currículo assuntos hoje retidos pelas páginas de livros infanto-juvenis. Em meio uma salada de frutas ideológicas, nasce um braço da psicologia moderna que tenta explicar como traduzimos os estímulos externos em correntes elétricas transmitidas por pequenos condutores. Ainda sabemos pouco sobre o cérebro, mas observações cada vez mais precisas e com instrumentos tecnológicos inimagináveis na época do pai da psicanálise, nos auxiliam a compreender cada vez mais como essa massa que assemelha-se a um chiclete mastigado, funciona. O foco que percebe-se é o "como" as coisas se encaixam em nossa mente. Um dos pilares práticos dessa perspectiva, é uma das coisas que mais me encanta.

Não é um charuto.
     Em determinado momento de minha vida resolvi ser professor. Desde muito cedo me interessei por didática e ciência. Um dos livros mais interessantes que li até hoje foi um de didática do ensino de física. Neste estavam duas paixões minhas: a ciência dos observadores do mundo e a arte do ensino. É interessante saber como as coisas funcionam mas tão importante quanto isso é poder perpetuar nossas descobertas. Lembro que ainda na sexta série combinei com um colega de classe que iríamos cursar a mesma faculdade, na época seria história. Ele iria para o Egito escavar e eu faria uma escola apenas das descobertas dessa escavação. Nunca esquecerei, afinal foi a primeira vez que outra pessoa fora da família havia considerado a possibilidade de minha profissão futura ser ligada ao magistério. O primeiro a associar a imagem que tinha de minha pessoa a de um ser capaz de ensinar. Se não me engano, claro. 

Cerâmica interplanetária.
     E o que acredito hoje é na livre associação das coisas. Assim a mente funciona. Apesar de parecer estranho, creio que qualquer um que possa ler este texto talvez perceba que temos a mesma fé. É mais simples que um bule de chá em órbita do sol, eu garanto. Simplesmente tudo tem um significado. Simples mesmo. Chega a ser quase bobo. Pense um pouco. O que está procurando ao ler este texto? Dentre várias alternativas há aquelas pessoais (entender como eu penso ou minha opinião) e as mais neutras (aprender algo ou procurar falhas lógicas ou retóricas). Todas as coisas mantém uma característica que busca objetivar a existência da mesma. A forma com que um aparelho eletrônico é desenhado de forma que agrade um determinado grupo de pessoas. A mente do designer busca uma conexão com a mente dos usuários. Isto é associação.


     Quando temos medo, buscamos prontamente em nossas memórias, momentos em que não tivemos medo. Pessoas as quais não permitiriam que sofrêssemos algum mal. Se não existe a possibilidade de um ser humano impedir este processo interno, nos resta seres que possam estar dentro de nós, ocupando o mesmo espaço. Para isso, precisamos além de desafiar leis da física, sucumbir e declarar que a capacidade corporal e psicológica pessoal é insuficiente para proteger a si. Nisso nasce deus. Nietzsche diz como ele morre e eu digo como nasce. Associamos várias características, como etiquetas, em todas as nossas imagens, os arquétipos que tentamos contornar. Quando encontramos dificuldades um tanto mais humanas, mas fora de nossas capacidades, apelamos para aqueles que confiamos. Transferimos nossas responsabilidades e clamamos por ajuda. Em uma sala de aula isso é comum.


"Professor! Acho que não entendi aqui..."
     Tenho um aluno que é disputado entre o pai e a mãe. Nenhum dos dois querem a criança, mas os dois concordam em não deixar com o outro. A situação é tão constrangedora que a guarda deste indivíduo está com uma das avós. Esta avó vive a me procurar, pois é uma daquelas raras pessoas que admiram a rainha das ciências. Sempre quer uma explicação sobre um problema proposto ao neto. Eventualmente me pego sendo assaltado em plena luz do sol, onde esta me subtrai uma ou outra informação sobre alguma observação das atividades. E eu acho isso impressionante. Nunca acertaram tanto com este menino do que quando deixaram-o com a avó. Em um mundo onde as crianças estão cada vez mais abandonados pelos pais, é difícil achar alguém que se importe com o que seu tutelado aprende ou não.


Oh, vô... Quero dizer... Professor!

     Foi o que eu ouvi outro dia na sala de aula. Sinto me lisonjeado. Esta criança mantém a imagem do professor próxima daquela outra que a protege, que a acolheu da fúria dos pais, que provavelmente a ama quase incondicionalmente. A minha imagem. É uma grande responsabilidade.


5 de novembro de 2011

Memória seletiva ou "meu cérebro é emocionante"



     A matemática ensina como pensar de forma genérica. Como ciência, ela aparece internamente em suas irmãs, como física e química, por gerarem modelos do que se pode esperar. Os experimentos dos quais a matemática prevê mais de um comportamento são os mais concorridos. Todos os outros acabam sendo coerentes com o que se calculou. Pensamento lógico-matemático é o que faz um cientista saber que determinado elemento de número atômico X terá as mesmas características dos elementos da sua família, mesmo este (que foi provavelmente responsável pelos poderes das Meninas Super Poderosas) não exista ainda. Através de modelos podemos teorizar como funcionam diversas estruturas, inclusive o corpo humano.

     Quando eu era mais jovem (não posso dizer pequeno, pois não lembro de quando o fui), assisti na televisão um videoclipe que era absurdo. Se tratava de homens subindo escadas para os céus, aviões estrelas atravessando o mundo, uma estátua da liberdade vermelha, exércitos se formando para uma invasão aparentemente pacífica e - a parte mais assustadora- chapéus em forma de vasilhas. Essa ideia era tão nítida que não poderia ser ilusão. Como passei diversos anos sem vê-lo novamente, e depois de ler sobre memória seletiva, tive a certeza que aquilo era uma mistura de coisas que me atraíam (vermelho, mapas, viagens, coisas sem sentido aparente e por aí vai), condensadas na última desfragmentação do meu cérebro.

     A memória pode ser comparada com aquele livro ponto que professores assinam para comprovar que estiveram durante aquele período na escola, dados de entrada e saída. Só porque podemos, não quer dizer que devemos. Afinal se fizerem esta comparação estarão cometendo o maior dos erros possíveis sobre o assunto. Memória é administrada no cérebro e supervisionada pelo nosso processador central que é absolutamente emocional. Muitos pedagogos já vociferam há anos sobre a Memória Emocional, contrária aos métodos mnemônicos. Este nosso livro ponto teria apenas as assinaturas dos professores que são considerados, pelo próprio, mais agradáveis. E os outros dividiriam o espaço em uma nuvem sem sentido de informações nas últimas páginas.  Um experimento fácil para entender como isso funciona é lembrar, sem googlar,  de cinco imortais da Academia Brasileira de Letras. Provavelmente, se sois uma pessoa politicamente engajada, vais lembrar imediatamente de José Sarney. Mais um? Enquanto pensamos nestes, quando se passa para a segunda fase do experimento. Muitos choram apenas ao vasculhar suas mentes. A ideia agora é lembrar de cinco pessoas que nos magoaram, nos marcaram ou até que amamos muito e eventualmente não podemos mais falar com. Nessa parte fica absolutamente mais fácil pois o cérebro indexa arquivos de forma a priorizar como nos sentimos do que a informação em si.

     Com o advento da internet, eu cheguei a procurar por este videoclipe, pois parte de mim sabia que uma estátua da liberdade vermelha não me era de todo agradável. Afinal, seria uma espécie de ucronia onde o comunismo havia vencido e até então não havia lido nada sobre. Procurei muito e por um bom tempo não achei. Estranhamente associei o som da música desta minha lembrança ao que o cantor italiano Eros Ramazzotti consegue produzir. Obviamente a música não era dele. Também associei o vídeo ao Raiden, de Mortal Kombat, mas isso não faz sentido.

     Um trauma pode ser resposta ao processo débil de armazenamento de uma memória que gere conflito com outras estruturas internas do aparelho psíquico. Um acidente, por exemplo, vem contra a todos os projetos e imagens de estima pessoal que podemos ter construído durante muitos anos. Um abuso pode ser praticado por alguém que depositamos nosso afeto por muito tempo. Ou seja, se tiver algum problema com determinada pessoa ou situação, é saudável resolver de imediato. O perigo de nossa memória é de eventualmente piorar certas situações conforme o que sentimos durante a geração do impacto traumático. Apesar de não ser um fiel seguidor de entidade sobrenatural, acredito que a figura do perdão nada mais é do que o sujeito lidando com o seu trauma ou com a iniquidade de outrem.

     O mais interessante disso tudo?