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29 de dezembro de 2011

Simulação e cultura



     Estamos tão acostumados com simulações que muitas vezes não a separamos da realidade. Por exemplo, você compreende o objetivo social das telenovelas? O poder da literatura indica os anseios do povo. Quando se sonhava com um mundo mais justo, os livros consumidos na época contavam estas histórias. Quando queríamos romances ou aquele confronto com o sistema patriarcal que todos tínhamos guardado, era isso o que se lia.


     O que precisamos pontuar é que a grande maioria da população, cliente da televisão, não estaria lendo. Este aparelho foi além do rádio, e alcança qualquer nível, inclusive aqueles que não são marcados por letras. O que nossa literatura diz hoje dos nossos anseios, pode ser facilmente deformada pela quantidade de pessoas alienadas que cultivamos nestes últimos anos. Não me surpreende saber que livros frágeis como da série Crepúsculo ou até alguns de auto-ajuda-com-açúcar, vendam horrores. Minha esperança é que essa geração evolua a capacidade de leitura. Que fiquem mais exigentes. Que não acabem apenas lendo aquela série de romances do estilo "Bianca" ou "Sabrina".


     Toda e qualquer história contada, jogada, cantada ou sussurrada pode ser uma boa alavanca para grandes leituras. Não quero parecer culto e sugerir Dostoiévski de cara, mas é importante em alguma parte da vida tocar em algum clássico. Como se sabe, para evitar cometer os mesmos erros, precisamos conhecer o passado, nossa história. A perspectiva humana dessa história vem de sua literatura, de sua produção, de suas histórias.


     Alguns personagens, com os quais me identifico, levantam essa questão da simulação. Permito-me interpretar a mensagem condensada: o que verdadeiramente sentimos é real. Se o estímulo externo foi real ou produzido/induzido, faz tanta diferença assim? Não incentivo um culto aos nossos sentimentos, precisamos entendê-los tanto quanto a ausência deles, mas tendo como partida o nosso próprio funcionamento, podemos compreender como é o mundo que nos cerca - e como é nosso mundo ideal.


     Essa ideia vale para todos. Inclusive aqueles aparentemente acéfalos que consomem parte de suas vidas recebendo estímulos doutrinados da mágica caixa colorida. Pensando bem, quantas criaturas, senão poucas, ousam subir acima da margem da lagoa original? Ou apenas, trocar de canal?


26 de dezembro de 2011

Sou o que sou.



     Alguém sempre compara sua profissão com o que tenho feito ultimamente. Ou seja, o quanto ganho permanecendo um período enorme dentro de uma sala de aula, carregando muito serviço para casa, planejando e avaliando cada passo de outros contra quanto ganha um cara que passa oito horas observando uma série de máquinas. Obviamente eu perco. Na perspectiva deles. Transcrevo a definição pessoal do que é ser professor educador:

     "Sou monarca em meu reino e sou o contador de histórias. Sou amigável e cruel, sou cantor e poeta. Sou imperialista e revolucionário, sou o herói e o vilão. Sou o enviado dos céus, sustento a alma, sou o monstro que se alimenta dos sorrisos. Eu sou o que sou, sou o adversário e o interlocutor. Converso com vivos e mortos, faço com que colaborem. Escrevo uma novela a cada dia. Está marcado em meu código genético, é efêmero como o fogo e eterno como um dragão. Dragão esse que mantém-se sobre tudo que tem de valor. Uma armadura de preciosidades, um universo eu deformo com minha palavra. Faço a vida servir ao futuro para que nenhum dos pequenos cometam nossos erros do passado. Sim, eu sou educador."


      Não quero parecer indelicado, mas quem pensa imediatamente em dinheiro quando planeja a atividade que pretende consumir grande parte do seu tempo até o fim do mesmo, é tão profundo quanto aquele recipiente oferecido para acomodar a sobremesa nos restaurantes de buffet livre.


Been there.

8 de dezembro de 2011

Vocação ou escravidão?



     Você já deve ter ouvido algo sobre vocação. Independente da orientação filosófica-religiosa, geralmente se trata de uma espécie de "chamado" que o indivíduo "tem" para realizar determinada tarefa. Se dá muita ênfase quando esta tarefa tem ligação direta com os interesses da instituição que ensina esse tipo de coisa. Como uma igreja, quando anuncia o tema, procura despertar jovens para que herdem os trabalhos da mesma.


     Vocação tem uma origem etimológica semelhante ao atual "chamado". Apesar de nem sempre ter alguma ligação, um poço e uma menina que atravessa o televisor, um chamado é basicamente alguém ordenando outrem para determinada posição ou atitude. Como Moisés chamou os hebreus ao deserto, vocação tem essa característica da atitude. É diferente de algum dom que o indivíduo carregue, este está mais para uma disposição maior a determinada área. Um chamado é uma espécie de convite para, muitas vezes, utilizar-se dos dons que se tem. Uma pessoa comunicativa pode se tornar um bom professor ou político, mas pode ter uma vocação para a assistência jurídica. Nem todo dom é ligado de imediato ao chamado.


     E você lê isso e pensa que algo neste texto está quase religioso. E realmente é de propósito. Afinal, o que gostaria de também tratar é o sujeito que executa o chamado. Quem o obedece já sabemos, somos nós (ou os outros). Como disse, dependendo da orientação religiosa, pode ser uma divindade que faz este chamado. Mas a sequência aleatória de fatos da vida podem também realizar vários chamados. E isso é muitas vezes traduzido como se fosse alguma exigência de uma entidade espiritual para legitimar, de forma intangível, sua missão. Uma bobagem que se repete ainda nos dias de hoje. Acredite. Não precisamos transferir nossas responsabilidades e vontades para outrem.


     Outro dia encontrei um antigo colega de escola, enquanto saía da instituição onde completamos o ensino fundamental. Este me pergunta o que eu fazia, eu prontamente respondi que estava ensinando. Eu era professor daquela nossa velha escola. Ele não lembrou de imediato, coisa que eu fiz questão dizer: prometemos um ao outro que seríamos professores. Na época ainda seria de história.  Por alguns anos procurei fazer outras coisas, mas acabei voltando para esta carreira, pois não tenho grandes ambições financeiras e gosto de resolver problemas em conjunto. Nada mais justo. Era isso ou desenvolver para a web, mas não gosto tanto assim de café. Já meu antigo colega é policial militar. Seria alguma espécie de chamado?


     A questão que gostaria de levantar é: somos escravos do chamado, desta vocação? Sinto uma tristeza enorme quando as pessoas deixam transparecer que tiveram um grande conflito contra sua própria vocação mas acabaram cedendo por ser a coisa certa. Como se isso valorizasse o produto.


     Em minha opinião, é uma questão de escolha. Posso ter um dom para o desenho mas com disciplina posso refinar minhas técnicas. Para quem quer escrever é importante ser um bom leitor. É interessante saber como se reproduz para que se evite fazê-lo. Isso é como tratamos um eventual dom, aqueles pontos que estavam sobrando em nossa ficha pessoal. Já uma vocação pode ser sumariamente negada. Dela não somos escravos. E sim de nossas vontades. E isso é uma característica encantadora nos seres humanos: a obstinação de seguir o que quer.


     A vida nos chama o tempo todo. Aceitamos apenas os chamados que mais nos agradam. Lembre quando ouvir o próximo dizer que "tentou fugir" de sua vocação, que este pode estar mentido e realmente estar fugindo daquilo que deveria estar fazendo.


7 de dezembro de 2011

Estou contra deus



     Como já devem ter percebido, sou professor de matemática para um público bastante restrito. A idade média destes alunos é aproximadamente dez anos. Como matemática é a primeira disciplina estritamente científica que se tem no currículo, geralmente causa um certo desconforto para jovens mentes. Afinal, desenhar e pintar é importante, escrever sobre como foram as férias também, mas a primeira vez em que alguém precisa provar algo que registra, é nas aulas desta ciência. Parte da vida de um matemático é desafios. A vida do cientista é recheada de desafios. Adquiri mais um nesta tarde.


Firme em Deus, ele me ajuda!
     Grande parte da população que está sendo irradiada pela matemática com minha perspectiva não consegue assimilar os conceitos debatidos. Indícios responsabilizam os próprios alunos dessa falta de retenção dos assuntos, afinal as notas mais baixas pertencem aos que menos argumentam durante as aulas. A diferença apaixonante entre religião e ciência é que a última exige que suas idéias sejam testadas e, se houver falhas nos testes, contestadas. Já religião é como aquelas comidas congeladas, apenas aperte uns botões e sirva-se. Não pergunte o que foi aquilo que desceu pela sua garganta. Apenas coma. Em minhas aulas procuro deixar isso bem claro: qualquer argumento pode e deve ser questionado até ser provado.


     Um aluno em especial, passou o ano tecendo intrigas entre os colegas, comandando corais com músicas de péssimo gosto, atrapalhando os estudos dos outros e desafiando a autoridade dos professores. Apenas o último item desta lista me é agradável. De resto, este apenas consumiu o precioso ar e o nobre tempo de profissionais da educação. Durante a exposição das notas do ano, afinal em dezembro essa prática se torna funesta, constatei que este indivíduo não teve um aproveitamento razoável o suficiente para avançar de ano. Quando revelei o fato, ele pediu para falar comigo em particular.


     Começou perguntando se eu conhecia a deus. Como não sou bobo, respondi que nunca tive o prazer. O resto do diálogo reproduzirei conforme lembro:


     - Pois professor, Deus e Jesus operam milagres de várias formas... - Eu o interrompi aqui para  evitar alguma parábola como da ovelha perdida ou uma lenda sobre um gigante sendo derrotado por um franzino.


Eu fora, me tira dessa.
     - Mas Miguel (nome fictício), não quero parecer chato, mas não me interessa nem um pouco o que seu deus faz ou deixa de fazer. O teu problema é comigo.


     - Professor, eu vou passar. Eu sei. Deus vai fazer esse milagre na minha vida... Eu tenho orado por isso... - Interrompo novamente.


     - Miguel, se tu usar o tempo que tem rezado para estudar, tenho certeza que sua chance de ser aprovado nas recuperações aumenta. Mas se ficar assim, está só se distraindo. Pega o caderno de alguém, olha os exercícios, faz eles de novo... - Nisso ele interrompe.


     - Não preciso, professor. Vai acontecer um milagre e eu vou passar.


     Neste momento, abri a questão para o grande público, da seguinte forma: 


     - Supondo que exista Deus, qual seria a ação mais provável deste ser: ajudar o Miguel a passar de ano ou fazer qualquer outra coisa pelas pessoas?


     Todos concordaram que se deus existe, não ajudaria o Miguel. A voz do povo é a voz de Deus, não?


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     - Miguel, seu deus terá que passar por cima de mim. E isso não é justo.


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     O pior é que sei exatamente com o quê estou mexendo. Já estive nessa situação. E foi a melhor coisa que me aconteceu. Afinal, não é justo transferir a sua responsabilidade para outrem. Muito menos alguém que não pode se defender. Prevejo uma decepção catastrófica na vida deste garoto onde ele terá que escolher entre olhar para o sol até ficar cego ou começar a tomar as rédeas da própria vida nas mãos.


     Se tem algo que gosto de fazer é corrigir provas e trabalhos. Penso, a cada questão, na pessoa que a realizou. Apesar de algumas respostas serem previstas em um gabarito, me interessa muito mais como o indivíduo chegou ao resultado. Conhecendo a pessoa, sei dizer se, mesmo um erro de cálculo, merece ser visto como uma evolução. Me considero uma pessoa justa, em relação a isso. Se o deus de Miguel é real, uma de suas características é ser absolutamente justo. Se fizer o milagre acontecer, não seria uma ação digna de justiça. Isso implica no fato de que eu seria mais justo do que esse deus. Logo, eu estou mais próximo da divindade cristã do que este para quem Miguel direciona suas preces.


     Na prova final esperava encontrar um Miguel consciente de que o tempo que perdeu durante o ano foi nocivo ao desenvolvimento deste. Mas vou encontrar um fanático. Infelizmente a ciência, que este ignora, poderia ajudá-lo a tornar-se uma pessoa mais tolerante ao fracasso, palavra que não existe no vocabulário de um religioso.


6 de dezembro de 2011

Teoria do caos ou "pessoas aleatórias"



     Antes de sair da escola, fui surpreendido por uma senhora que perguntava se eu sabia onde era o diretório do partido político que detém a prefeitura da cidade. Apesar de ter ficado desnorteado por uns instantes, tentando compreender a linha de raciocínio entre a minha pessoa e o prefeito, respondi prontamente que não sabia.


     Sou uma daquelas pessoas que fala muito. E pelo nível de surdez, falo um tanto mais alto do que o comum. Lembro de ter sido repreendido uma vez pelo comprimento de minha barba e da altura do meu falar. O argumento era algo como "mulheres não gostam de exageros". Quem me conhece sabe que procuro não deixar as opiniões da moda ditarem como devo me comportar ou com quem parecer. Ou seja, não estava muito preocupado se estava sendo exagerado. Procurava sempre ser o mais autêntico possível. E não posso explicar como me é estranho esse tipo de comentário surgindo de uma fonte aleatória. Principalmente responsabilizando um gênero, usurpando a opinião das mulheres, para dar-me uma aula de como funciona a sociedade.


     A senhora vinda da nuvem de caos contou-me que em sua sofrida vida, apenas um homem a ajudou no passado, quando precisava cuidar dos filhos pequenos enquanto o esposo trabalhava distante da terra natal. Este homem havia lhe favorecido perante alguma secretaria de assistência, coisa que na época, segundo a mesma, não era autônoma como hoje. Este mesmíssimo homem ocupa hoje o cargo de prefeito da cidade. E, para esta senhora, será lembrado como o salvador de sua angústia. Convenhamos, segundo ela, eram seis crianças que dependiam dela e precisavam de um lar. Qualquer mão que ajudasse, seria lembrada com carinho.


     Quando agimos, explicando de forma exagerada, movemos as cordas onde estão atadas nossas vidas, os cenários e objetos em nossa realidade. Quando temos uma boa ideia, agimos de forma benevolente, é como se pela perspectiva dos favorecidos, nossa presença fosse desejada e nossos relacionamentos se estreitassem. Quando há a ofensa gratuita, o desconforto impera entre os seres. Mesmo sabendo lidar com as críticas, quando a palavra é afiada (e envenenada) de forma a causar dano, gera mágoa. E para isso não há solução. A mágoa é o calo da alma. Uma lesão que deforma e machuca. Passa a ser parte indistinguível do corpo.


     Muitos talvez não saibam como é ser lembrado por ter ajudado alguém, por ter sido importante em um momento delicado, de uma palavra de conforto ou ânimo durante um período de desespero. Uma ação nossa, tão superiores em nossos próprios egos, pode mudar a vida e a perspectiva de um semelhante, principalmente quando sensibilizado pelos apuros da vida.


     Esta senhora quase chorou ao lembrar como foi bom descobrir que o mundo poderia ser um pouco mais agradável quando se conhece as pessoas certas.


     A vida não é justa. É composta por pessoas. Pessoas não são justas. Ainda bem.


3 de dezembro de 2011

Fala que eu acredito ou "da mágoa nasce o forever alone"



     Sempre acreditei em tudo que me diziam. Afinal, por que mentiriam sobre um novo jogo ou episódio do desenho mais esperado da infância? Não seria uma sabotagem contra nossa amizade andar pelos caminhos tortuosos da mentira? Sim, cada vez mais percebo como fui (e sou) tolo.


     Eu era aquela criança obesa que não silencia, sempre fiz muitas perguntas sobre tudo. Até hoje se ficar minutos em um diálogo, engato a marcha e procuro saber o que meu interlocutor entende como vida, o universo e tudo mais. E tenho aprendido muito com isso. Simultaneamente carrego o fardo de verificar fontes e passos lógicos. Afinal, posso não saber se é uma inverdade, mas se for mal construído, o argumento se torna falacioso. Quando criança sabia apenas dois números de telefone: o da polícia militar e de um colega de escola. Era um dos únicos que andavam comigo durante o período letivo no ensino fundamental e eventualmente nos víamos ao longo do dia.


     Cometemos este equívoco  de considerar todo e qualquer indivíduo de idade avançada, um sábio. Infelizmente esta não é nossa realidade. Mesmo assim, cláusulas do nosso contrato social de boa convivência exige que os tratemos como senhores e senhoras, como se fosse um título nobiliárquico. Outro erro.


     Este meu amigo de escola chamava meus pais pelos nomes. Isso era uma revolução, que fiz questão de retribuir. Uma pena que seus pais não eram tão liberais assim.


     Obeso que sou, passei boa parte de minha vida comendo. Inclusive quando saía, provavelmente um dos destinos seria uma pausa para refastelar-me com alguma subespécie de fast food. Ao telefonar para meu companheiro de trilhas gastronômicas, este me surpreende dizendo que está doente, o suficiente para não sair de casa. Resolvo remarcar um compromisso para a noite. Como era um jantar próximo ao local onde eu teria ido com meu amigo, resolvo buscar uma água mineral no local e tentar reconhecer alguém, uma espécie de teste social, se me cumprimentavam por ser eu ou por acompanhar o, então, adoentado colega.


     A grande diferença entre contar uma mentira e contar uma verdade é que para a última, a natureza nos é testemunha. Os fatos ocorrem naturalmente. Quando se mente, cada lacuna precisa ser coberta. Isso exige mais trabalho. Como tenho uma memória limitada, não posso me dar o luxo de grandes invenções.



     Minha surpresa foi quando vi este meu, até então enfermo conhecido, em pé, onde provavelmente estaríamos. Como sou tolo, fui congratular a recuperação rápida do mesmo. Este, junto com outros dois, iniciaram a marcha da vergonha para qualquer direção que não fosse a minha.


     Para quem tem esta visão romântica da vida, como eu, é triste ser enganado. Afinal, se uma pessoa diz ser seu amigo, você espera o no mínimo colaborar com as atividades coletivas lúdicas, inclusive a segregação dos grupos. Que seja escolhido para jogar handebol, mesmo não sendo a melhor opção, mas para que joguem no mesmo time. Que seja convidado para comemorar uma recuperação rápida e sem sequelas das diversas indisposições da vida. Que chore e ria em conjunto. Ou seja, aprendi muito cedo a ser ímpar. E isto é a pior coisa com que se pode acostumar, a solidão.


     Quando alguém mente, como mostrado em diversos seriados, acaba por agir de forma ligeiramente diferente do comum. Como piscadelas, torcer os dedos, balançar-se na cadeira e muitas outras atitudes suspeitas sugerem. Ao perceber minha presença, levantar e sair na marcha tétrica, atestou a maldade investida no ato.


     Tenho uma péssima memória para dados comuns. Infelizmente coisas que magoam, não somente a mim, mas situações emocionalmente desastrosas que aconteceram ao meu redor, lembro-as como se tivessem ocorrido neste fim de semana.


     Depois do evento, percebi que era eu quem corria atrás destes infelizes. Eu quem gastava telefone e preocupação com suas pessoas e famílias. Decidi apenas não fazê-lo. E para minha surpresa, não me foi difícil permanecer aquele primeiro ano sem um cumprimento. Muito menos o outro ano até o primeiro diálogo após o fato. Não tenho mais interesse em falar com estes indivíduos sobre o ocorrido, apenas agradeço por mostrarem para este que vos fala que o mundo é repleto de pessoas que podemos confiar. Precisamos apenas encontrá-los. E não desistir em cada tropeço como o meu, ou contentar-se com fragmentos verdadeiros em meio ao abrolho. Contentar-se é pior que desistir.


     Isto ocorreu em idos de 2001. Como não sou deus, eu posso até perdoar, mas não esqueço. Jamé [sic].


30 de novembro de 2011

Herdeiros da terra



     Apesar de não haver uma resposta de todo o grupo, sou responsável da educação matemática de indivíduos bastante heterogêneos e desmotivados. Ou seja, praticamente o perfil de todo o ensino fundamental em todas as escolas que visitei, trabalhei, observei ou ouvi falarem. Estamos em um momento especial, do qual futuras gerações agradecerão ou apagarão de suas memórias. Depende do que faremos para modificar nossa realidade.


     Creio que todos saibam que um polígono, palavra herdada que significa "muitas aberturas" ou "muitos ângulos", é uma figura geométrica que obedece a uma lei: espaço limitado por segmentos de reta. Ou seja, será uma figura com os lados "retos" e sem "furos". A forma com que se trabalha este tipo de conceito pode facilitar a compreensão da geometria euclidiana. Palitos em punhos, a atividade consistia em construir estes entes com o material.


     Ao longo da vida, precisamos lidar com a perda e o ganho. Parte desta perda pode ser amortecida com nossa capacidade de negociar. Creio que se um indivíduo deixa a escola com a capacidade plena de negociar, esta cumpriu sua meta social. Quando se negocia, se pondera valores, considera-se argumentos e tudo culmina em tomadas de opinião. Comprar ou não comprar, ter um filho ou não, casar-se ou apenas esperar um pouco mais são assuntos que podem ser transformados facilmente em um debate, pois geralmente envolvem o ganho ou perda de uma outra pessoa.


     Apenas um palito cada aluno recebeu. Obviamente o primeiro desafio foi descobrir como fazer um polígono de um único lado. Em seguida, os mais adiantados, já se reuniam em trios, já que o polígono com menor número de lados seria um triângulo. Quando propus aumentar o número de lados, naturalmente foram negociando os lados pertencentes aos colegas. Por fim tínhamos duas grandes figuras, mas a exigência agora fazia com que pudesse existir apenas uma. Houve uma guerra. Toda a diplomacia exercida até então precisava ser revista. Conforme a atividade se desenrolou, percebeu-se que apenas os bons negociantes e estrategistas, apesar da atividade simples, ficaram até o fim com suas vontades satisfeitas.


     Percebi que, apesar da luta, todos entristeciam quando percebiam que seu palito acabaria fazendo parte da figura singular, que representaria toda a turma. Como se tomados por uma doença, entregavam-se ao intento do grupo. Toda a força do pequeno corpo do último possuidor de um dos lados do um polígono, fazia força para não entregar seu tesouro. Mas o coletivo vencia. Coletivo controlado por estes agentes caóticos, os diplomatas e estrategistas.


     Estes seres especiais herdarão os reinos da terra.


Discernimento


     Gosto muito de um debate. Só complica quando alguma das partes apenas refaz um argumento e o apresenta como se fosse novo. Por isso é difícil conversar muito tempo com proselitistas. É bom pensar e repensar suas ideias, mas não queira que estas sejam as opiniões de outrem. Sim, pode haver um caso onde um conclua que seu raciocínio não é suficientemente abrangente. Em generalizações, é comum. Como "todas as pessoas são superficiais", ignoro todos aqueles que lutam para que, pelo menos, não sejam reconhecidos desta forma. Mas somos ou não todos superficiais?


Livro fantástico.
     Quando se fala que a história é marcada pela luta de diferentes classes sociais, espera-se que o interlocutor compreenda que esta é uma pequena releitura da ideia de história, segundo Marx. Esta última frase é dita na esperança de quem a ouve (ou lê) conheça um pouco da história humana. Já a história humana é a justificativa maior da existência das escolas. Se egressos destas não conseguem compreender o que foi dito e muito menos consegue expressar uma opinião, não sei exatamente qual função a instituição educacional tem na sociedade.


     Durante uma atividade, alguns alunos precisavam, depois de lerem um poema apenas formado por verbos, construírem seus próprios versos. Poucos foram os que não se utilizaram daqueles já expostos no poema introdutório. Se eu fosse o titular da disciplina de língua portuguesa ou filosofia, estaria um tanto envergonhado. O que produzem em matemática é o suficiente para me dar calafrios. Uma demasiada preocupação com a formação humana os torna desrespeitosos e insuficientes. A científica, os automatiza. Por que não encontramos o meio termo?


     Durante um debate, um outro ente se aproximou e procurou explicar que, assim como a teoria de que o universo era repleto de éter tornou-se insustentável até o descobrimento da matéria escura, a ciência logicamente deveria créditos ao ser de existência questionável (e muitas vezes negada com razão). Não consigo encontrar o caminho que a criatura fez para justificar seu criador.


     Reproduzir conteúdo, respostas automáticas ou justificar todas as incertezas com entidades não tangíveis, não é natural. Procurem se esforçar, meditem um pouco mais na forma em que pensa ao invés do que há de escrito em um livro. Quando estiver pronto, ao ler um livro saberá discernir entre literatura científica e fantástica.


25 de novembro de 2011

Da defesa do invisível



     Pareidolia é a capacidade de interpretar determinadas características específicas como expressão facial. Dois pontos acompanhados da letra "d" maiúscula, formam um símbolo facial que demonstra uma felicidade contagiante. E não é doença, ver nos chamados emoticons, rostos. Ou até compreender o que sente uma criatura que apenas existe em seu cérebro.


     O ser humano sobreviveu de tal forma a adaptar-se de todas as formas possíveis. Se há uma grande proeza em ser homo sapiens é a adaptação. Construímos, organizamos, calculamos e prevemos cada uma de nossas necessidades, imediatas ou não. Um dos indícios de que evoluímos, são fragmentos físicos ou mentais que permaneceram, sem utilidade imediata.


     O medo do fogo é praticamente natural. Assim como algumas coisas nos parecem intuição, pode ser apenas uma dessas estruturas que não nos abandonaram. A nossa capacidade quase irracional de reconhecer expressões nas mais difíceis sombras e fumaças são vestígios de que evoluímos. Parte do isso faz por nós é automaticamente determinado pela sociedade. Nossos contratos sociais, assinados na fecundação, exige que não respondamos diferente quando perguntarem se estamos bem.


     Parte das lendas são interpretações de grandes idéias. Divindades gregas e romanas explicam detalhadamente como era o contrato social daquela época. E quando me refiro aos contratos sociais, não são apenas aquelas características coletivas, mas englobam também todo e qualquer comportamento esperado. Se deuses eram seres poderosos com paixões humanas, além dos anseios dos mortais, provavam que as decepções não dependem da capacidade do ser. Até os deuses choravam, sofriam e se alegravam.


     Em um mundo onde uma boa fábula ou parábola seja transformada em uma verdade absoluta, estamos lidando com diversas considerações e interpretações tortuosas, baseadas em parte aos nossos comportamentos quase irracionais e a ideia da ambrosia. Sim, utilizamo-nos da capa pseudocientífica ou religiosa para tornar-nos intocáveis. Se houver uma justificativa mística para tal ato, melhor ainda. Afinal, quem questiona esse tipo de argumento?


     Se algo ocorreu e foi a vontade de uma entidade sobrenatural, por que esta mesma entidade não se manifesta de forma mais humana, a qual toda a fábula é sustentada, na igualdade entre entes superiores e inferiores? Não é mais simples que a natureza seja sábia o suficiente para manter a capacidade energética entre dois meios, céu e terra, equilibrada por meio de um relâmpago? Ou que em sua inconsciência, mantenha placas resfriadas mas fragmentadas? A Navalha de Occam coça, e me faz questionar tudo isso, até que se possa observar indícios nos dois cenários.


     Parece que a entidade superior não vem se defender.


24 de novembro de 2011

A navalha de Occam



     A navalha de Occam é uma das maravilhas filosóficas da Idade Média.


     Tira-se tudo quanto pode, enquanto mantemos a essência.


     Quando qualquer situação pode ser explicada por várias formas, a mais simples deve ser a mais acertada.


     Percebe-se que não sou adepto ao método. Mas posso tentar.