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29 de dezembro de 2011

Simulação e cultura



     Estamos tão acostumados com simulações que muitas vezes não a separamos da realidade. Por exemplo, você compreende o objetivo social das telenovelas? O poder da literatura indica os anseios do povo. Quando se sonhava com um mundo mais justo, os livros consumidos na época contavam estas histórias. Quando queríamos romances ou aquele confronto com o sistema patriarcal que todos tínhamos guardado, era isso o que se lia.


     O que precisamos pontuar é que a grande maioria da população, cliente da televisão, não estaria lendo. Este aparelho foi além do rádio, e alcança qualquer nível, inclusive aqueles que não são marcados por letras. O que nossa literatura diz hoje dos nossos anseios, pode ser facilmente deformada pela quantidade de pessoas alienadas que cultivamos nestes últimos anos. Não me surpreende saber que livros frágeis como da série Crepúsculo ou até alguns de auto-ajuda-com-açúcar, vendam horrores. Minha esperança é que essa geração evolua a capacidade de leitura. Que fiquem mais exigentes. Que não acabem apenas lendo aquela série de romances do estilo "Bianca" ou "Sabrina".


     Toda e qualquer história contada, jogada, cantada ou sussurrada pode ser uma boa alavanca para grandes leituras. Não quero parecer culto e sugerir Dostoiévski de cara, mas é importante em alguma parte da vida tocar em algum clássico. Como se sabe, para evitar cometer os mesmos erros, precisamos conhecer o passado, nossa história. A perspectiva humana dessa história vem de sua literatura, de sua produção, de suas histórias.


     Alguns personagens, com os quais me identifico, levantam essa questão da simulação. Permito-me interpretar a mensagem condensada: o que verdadeiramente sentimos é real. Se o estímulo externo foi real ou produzido/induzido, faz tanta diferença assim? Não incentivo um culto aos nossos sentimentos, precisamos entendê-los tanto quanto a ausência deles, mas tendo como partida o nosso próprio funcionamento, podemos compreender como é o mundo que nos cerca - e como é nosso mundo ideal.


     Essa ideia vale para todos. Inclusive aqueles aparentemente acéfalos que consomem parte de suas vidas recebendo estímulos doutrinados da mágica caixa colorida. Pensando bem, quantas criaturas, senão poucas, ousam subir acima da margem da lagoa original? Ou apenas, trocar de canal?


9 de dezembro de 2011

Separando tudo até a última ponta.


     Percebo uma certa revolta em jovens profissionais da educação quando suas disciplinas são desmerecidas em relação ao eixo "língua portuguesa - matemática". E os mais velhos acabam por associar-se a um dos professores destas duas disciplinas quando pretendem argumentar algo. Seja lógica, organização ou coesão de respostas, é razoável esse tipo de ligação. Um transtorno global do desenvolvimento precisa deixar evidências em todas as atividades, afinal é um transtorno global.


     Assisti uma palestra sobre educação física na infância, com o objetivo clássico dessa disciplina: trabalhar comportamento, limites, cooperação, saúde e diversão. Por fim o palestrante deixou transparecer sua insatisfação da inexistência desse tipo de serviço, do profissional da área, em todas as escolas infantis. Inclusive sua companheira de apresentação mostrou-se bastante infeliz por não haver este cuidado, de uma vida saudável desde a pequena idade e o desmerecimento do mesmo na educação básica.


     Como sou um adepto da vida sedentária, não tenho um grande argumento e lição sobre exercícios físicos. Não nos damos bem. Hoje sou obrigado, mas a vida corrida moderna me obriga a permanecer imóvel. Ainda cumpro minha promessa de exercitar-me. Por enquanto não.


     Um dia claro de inverno, estava eu na sala dos professores da escola em que trabalho quando a colega, ponta oposta do eixo, expôs a suspeita que determinado aluno portasse alguma deficiência cognitiva. Para quem não é do corpo docente, não sabe que isso é parte de uma piada pronta, afinal alguns cérebros parece funcionar apenas nas últimas semanas do ano, quando o desespero é maior do que a arrogância.


     Passei um tempo observando o indivíduo e pude constatar que este não produz material suficiente para ser aprovado. E desde o início havia notado isso, apenas nunca havia cogitado a possibilidade de estar expondo uma pessoa com dificuldades reais de aprendizado ao meu método caótico de ensino.


     O global, de transtorno global do desenvolvimento deste menino, passou a ser questionado no momento em que tive a maravilhosa (e nada original) ideia de conversar com outros professores. A titular da disciplina de educação física me deu a revelação. Enquanto ela falava eu agradecia não ser professor de física, constantemente confundidos com aqueles modelos das propagandas de pasta de dente, da educação física. A mulher disse que o menino em questão participava ativamente dos jogos propostos, sabia comportar-se perante os outros, negociava, seguia as regras, exigia o mesmo dos colegas, ou seja, era como uma criança comum, para não dizer normal.


     Muitos acabam se decepcionando com determinadas ciências pela forma com que é apresentada. Ou pelo confronto de humores com o docente responsável. Procuro deixar clara a diferença entre a matemática e minha personalidade. Procuro apresentar a ciência da forma mais agradável possível. Sou aquela pessoa que procura arranjar namorados para uma amiga um tanto distante e intolerante. Tento vender suas características mais agradáveis como seu senso de justiça e humor peculiar.


     Mesmo assim, este meu aluno, não apreciador da matemática confesso, aparenta realmente ter algum distúrbio. Mas não é nada que impeça-o de concluir e entregar os trabalhinhos propostos. Isso ele não faz. O que posso deduzir? Que este tem um problema muito sério comum aos jovens: desinteresse. Infelizmente não há o que posso fazer para chamar mais a atenção destes.


     O que me preocupa muito é essa indisposição do corpo docente de se conhecer e saber o que cada membro pensa. Suas perspectivas e frustrações. Um corpo vivente com partes autônomas. Cada um puxa para um lado diferente. Assim estamos formando uma nação de esquizofrênicos.


6 de dezembro de 2011

Teoria do caos ou "pessoas aleatórias"



     Antes de sair da escola, fui surpreendido por uma senhora que perguntava se eu sabia onde era o diretório do partido político que detém a prefeitura da cidade. Apesar de ter ficado desnorteado por uns instantes, tentando compreender a linha de raciocínio entre a minha pessoa e o prefeito, respondi prontamente que não sabia.


     Sou uma daquelas pessoas que fala muito. E pelo nível de surdez, falo um tanto mais alto do que o comum. Lembro de ter sido repreendido uma vez pelo comprimento de minha barba e da altura do meu falar. O argumento era algo como "mulheres não gostam de exageros". Quem me conhece sabe que procuro não deixar as opiniões da moda ditarem como devo me comportar ou com quem parecer. Ou seja, não estava muito preocupado se estava sendo exagerado. Procurava sempre ser o mais autêntico possível. E não posso explicar como me é estranho esse tipo de comentário surgindo de uma fonte aleatória. Principalmente responsabilizando um gênero, usurpando a opinião das mulheres, para dar-me uma aula de como funciona a sociedade.


     A senhora vinda da nuvem de caos contou-me que em sua sofrida vida, apenas um homem a ajudou no passado, quando precisava cuidar dos filhos pequenos enquanto o esposo trabalhava distante da terra natal. Este homem havia lhe favorecido perante alguma secretaria de assistência, coisa que na época, segundo a mesma, não era autônoma como hoje. Este mesmíssimo homem ocupa hoje o cargo de prefeito da cidade. E, para esta senhora, será lembrado como o salvador de sua angústia. Convenhamos, segundo ela, eram seis crianças que dependiam dela e precisavam de um lar. Qualquer mão que ajudasse, seria lembrada com carinho.


     Quando agimos, explicando de forma exagerada, movemos as cordas onde estão atadas nossas vidas, os cenários e objetos em nossa realidade. Quando temos uma boa ideia, agimos de forma benevolente, é como se pela perspectiva dos favorecidos, nossa presença fosse desejada e nossos relacionamentos se estreitassem. Quando há a ofensa gratuita, o desconforto impera entre os seres. Mesmo sabendo lidar com as críticas, quando a palavra é afiada (e envenenada) de forma a causar dano, gera mágoa. E para isso não há solução. A mágoa é o calo da alma. Uma lesão que deforma e machuca. Passa a ser parte indistinguível do corpo.


     Muitos talvez não saibam como é ser lembrado por ter ajudado alguém, por ter sido importante em um momento delicado, de uma palavra de conforto ou ânimo durante um período de desespero. Uma ação nossa, tão superiores em nossos próprios egos, pode mudar a vida e a perspectiva de um semelhante, principalmente quando sensibilizado pelos apuros da vida.


     Esta senhora quase chorou ao lembrar como foi bom descobrir que o mundo poderia ser um pouco mais agradável quando se conhece as pessoas certas.


     A vida não é justa. É composta por pessoas. Pessoas não são justas. Ainda bem.


5 de dezembro de 2011

Detalhes



     Uma obra bem construída carrega uma série de planos paralelos que explicam um tanto como as coisas acontecem e suas consequências. Podemos perceber a falta deste cuidado, que tentaram reverter ao longo dos outros filmes, em Star Wars. No primeiro filme, ou o quarto episódio, a explicação sobre o pai de Luke é um tanto estranha para quem cresceu assistindo já os episódios mais recentes. A impressão de coesão e concordância com as obras posteriores (cronologicamente anteriores) estão ausentes e causam uma sensação bastante constrangedora para os fãs mais fiéis, ao tentarem explicar este lapso.


     É como entender como as coisas funcionam e o motivo pelo qual permanecem é que consolida a ambientação de uma história. Existe um limite para que não se torne uma obra detalhista em demasiado. Mas o que mais me fascina é quando alguns detalhes têm camadas de entendimento. Dependendo de sua bagagem cultural, você compreende melhor as dicas dadas. É como ler um livro pela segunda vez. Você consegue perceber desde o princípio as motivações e justificativas de determinados personagens.


     Em uma das músicas tocadas na última atividade social que participei havia em seu refrão a seguinte frase:


"No plano cartesiano
 só há espaço p'ra eu e você"


     Para muitos, não faz diferença alguma a evocação do método de René Descartes de representação gráfica de pares ordenados para a compreensão da segunda frase. É como se fossem desconexas. Quando se entende um pouco sobre matemática fundamental, logo percebe-se que a segunda frase é apenas uma forma romântica de reconhecer o tal par.


     Eventualmente quem constrói uma obra deixa dicas do alinhamento mental que se encontra quando está trabalhando. Seja referências, citações ou sugestões, todas funcionam como âncoras de nuvens para que saibamos exatamente o que sentia o criador ao soprar o ar da vida em sua arte.


     Conselho do velho Rachid: sempre procure saber da vida do autor do que está lendo, ouvindo ou assistindo.  Compreenda a época que a obra foi criada. Estabeleça os paralelos com a vida contemporânea e aprenda a aproveitar todas essas dimensões destas obras. Pode ter certeza que assim entenderá que muita coisa especial pode ser deixada de lado pela falta da valorização pessoal ou preconceito seu.


3 de dezembro de 2011

Fala que eu acredito ou "da mágoa nasce o forever alone"



     Sempre acreditei em tudo que me diziam. Afinal, por que mentiriam sobre um novo jogo ou episódio do desenho mais esperado da infância? Não seria uma sabotagem contra nossa amizade andar pelos caminhos tortuosos da mentira? Sim, cada vez mais percebo como fui (e sou) tolo.


     Eu era aquela criança obesa que não silencia, sempre fiz muitas perguntas sobre tudo. Até hoje se ficar minutos em um diálogo, engato a marcha e procuro saber o que meu interlocutor entende como vida, o universo e tudo mais. E tenho aprendido muito com isso. Simultaneamente carrego o fardo de verificar fontes e passos lógicos. Afinal, posso não saber se é uma inverdade, mas se for mal construído, o argumento se torna falacioso. Quando criança sabia apenas dois números de telefone: o da polícia militar e de um colega de escola. Era um dos únicos que andavam comigo durante o período letivo no ensino fundamental e eventualmente nos víamos ao longo do dia.


     Cometemos este equívoco  de considerar todo e qualquer indivíduo de idade avançada, um sábio. Infelizmente esta não é nossa realidade. Mesmo assim, cláusulas do nosso contrato social de boa convivência exige que os tratemos como senhores e senhoras, como se fosse um título nobiliárquico. Outro erro.


     Este meu amigo de escola chamava meus pais pelos nomes. Isso era uma revolução, que fiz questão de retribuir. Uma pena que seus pais não eram tão liberais assim.


     Obeso que sou, passei boa parte de minha vida comendo. Inclusive quando saía, provavelmente um dos destinos seria uma pausa para refastelar-me com alguma subespécie de fast food. Ao telefonar para meu companheiro de trilhas gastronômicas, este me surpreende dizendo que está doente, o suficiente para não sair de casa. Resolvo remarcar um compromisso para a noite. Como era um jantar próximo ao local onde eu teria ido com meu amigo, resolvo buscar uma água mineral no local e tentar reconhecer alguém, uma espécie de teste social, se me cumprimentavam por ser eu ou por acompanhar o, então, adoentado colega.


     A grande diferença entre contar uma mentira e contar uma verdade é que para a última, a natureza nos é testemunha. Os fatos ocorrem naturalmente. Quando se mente, cada lacuna precisa ser coberta. Isso exige mais trabalho. Como tenho uma memória limitada, não posso me dar o luxo de grandes invenções.



     Minha surpresa foi quando vi este meu, até então enfermo conhecido, em pé, onde provavelmente estaríamos. Como sou tolo, fui congratular a recuperação rápida do mesmo. Este, junto com outros dois, iniciaram a marcha da vergonha para qualquer direção que não fosse a minha.


     Para quem tem esta visão romântica da vida, como eu, é triste ser enganado. Afinal, se uma pessoa diz ser seu amigo, você espera o no mínimo colaborar com as atividades coletivas lúdicas, inclusive a segregação dos grupos. Que seja escolhido para jogar handebol, mesmo não sendo a melhor opção, mas para que joguem no mesmo time. Que seja convidado para comemorar uma recuperação rápida e sem sequelas das diversas indisposições da vida. Que chore e ria em conjunto. Ou seja, aprendi muito cedo a ser ímpar. E isto é a pior coisa com que se pode acostumar, a solidão.


     Quando alguém mente, como mostrado em diversos seriados, acaba por agir de forma ligeiramente diferente do comum. Como piscadelas, torcer os dedos, balançar-se na cadeira e muitas outras atitudes suspeitas sugerem. Ao perceber minha presença, levantar e sair na marcha tétrica, atestou a maldade investida no ato.


     Tenho uma péssima memória para dados comuns. Infelizmente coisas que magoam, não somente a mim, mas situações emocionalmente desastrosas que aconteceram ao meu redor, lembro-as como se tivessem ocorrido neste fim de semana.


     Depois do evento, percebi que era eu quem corria atrás destes infelizes. Eu quem gastava telefone e preocupação com suas pessoas e famílias. Decidi apenas não fazê-lo. E para minha surpresa, não me foi difícil permanecer aquele primeiro ano sem um cumprimento. Muito menos o outro ano até o primeiro diálogo após o fato. Não tenho mais interesse em falar com estes indivíduos sobre o ocorrido, apenas agradeço por mostrarem para este que vos fala que o mundo é repleto de pessoas que podemos confiar. Precisamos apenas encontrá-los. E não desistir em cada tropeço como o meu, ou contentar-se com fragmentos verdadeiros em meio ao abrolho. Contentar-se é pior que desistir.


     Isto ocorreu em idos de 2001. Como não sou deus, eu posso até perdoar, mas não esqueço. Jamé [sic].


Inconveniente, eu?




     Sou inconveniente. E não sou a verdade. Muito menos a vida ou o caminho. Apenas um homem. Um homem inconveniente. Ouvi três vezes em um curto espaço de tempo que carrego esta característica. E não é aquele tipo de inconveniente que conta piadas ruins ou que precisa ser carregado para casa quando a noite acaba. São comentários sobre o comportamento humano, perguntas indiscretas e eventualmente brinco com o que os outros estão pensando. Sim, eu leio mentes. Pelo menos parece.


     Outro dia, uma colega de trabalho, que não estava em um auditório meu, comprou uma torta para degustação enquanto a futura diretora da escola onde trabalho se apresentasse. Sucumbi ao humor questionável quando sugeri que o cenário tivesse sido arquitetado para que todos fossem favoráveis ao grupo apresentado. Levantei a hipótese cômica da compra de votos de uma eleição com apenas um conjunto candidato. Parece que mais de uma pessoa havia pensado nisso, mas apenas eu falei. E fui propositalmente mal interpretado.


     Eu sempre gostei de gerar interpretações múltiplas. Sempre o fiz e creio que se há algo que eu faça bem, é isto. Mal interpretação é comum em um meio social e comunicativo. Assim como deformação da realidade em um mundo onde quase ninguém pergunta pelas fontes das informações recebidas. Ou procura saber dos sujeitos envolvidos. Nisso me torno inconveniente, pois pergunto tudo. Confiro cada fragmento das histórias que me contam em cada esquina. E quando vejo alguém fazendo o mesmo, sinto que o mundo não está perdido. Por mais que o assunto seja superficial.


     Inconveniente, hoje, é quem fala o que pensa. E mais grave, é dilacerado moralmente por aqueles que pensam semelhante. Não há a necessidade de um adversário, o diabo, quando a alma humana consegue ser muito pior do que qualquer ser que habita alguma profundeza. Inclusive a transferência das nossas responsabilidades para entidades invisíveis prova que somos cruéis em essência.


     Inconveniente é quem diz esse tipo de coisa. Quem nos desmascara, quem rouba nossos demônios. Exorcismo é quando alguém fala a verdade em um mundo onde figurantes mentem.


     Sim, eu preciso aprender a não dizer tudo que sei. Por mais que seja contraditório ao nome desta página, Rachid precisa deixar de falar o que sabe.


21 de novembro de 2011

Eu escolho a liberdade.


     Como sabem, minha preferência por um vestuário alternativo faz com que meu gosto estético seja bastante questionado. Sempre gostei de roupas que beiram o utilitarismo. Estar bem vestido, ao meu ver, é estar confortável. Ainda fundo uma religião onde o sacerdote precisa vestir-se de forma alternativa. Se bem que existem várias, mas nem em todas tenho o acesso aos cofres. Se fosse minha, o cofre seria meu.


     Não tenho aquele problema, comum aos seguidores de religiões monetárias, com o dinheiro da instituição. Não encerrei este capítulo de minha vida por causa de dinheiro. Quer dizer, não só por causa disso. Não consigo permanecer em um lugar onde o dinheiro fala mais alto. Ou seja, não pertenço a este mundo. Assim como significa possibilidades abstratas, não quer dizer que ao pagar por uma aula particular, somos donos do professor. Não mesmo. Assim como se suportamos alguma instituição de caridade, não significa que somos donos desta. Cada um tem seus próprios demônios e respondem aos seus próprios desígnios morais. Não tenho fé em justiça, principalmente se esta vier depois da vida. Se isso é verdadeiro, naturalmente se torna injusta.


     Como sempre fui uma pessoa que procurava os motivos pelos quais as coisas acontecem, e exagerado, acabei por descobrir como muita coisa acontece. Grande parte do que se diz responsabilidade de algum espírito é, na realidade, um bom esquema de informações bastante humano. Tenho conceitos estereotipados de cada pessoa quando revelam sua orientação religiosa, mesmo que adormecidas. Dificilmente erro. Mas reconheço quando alguma pessoa manifesta uma ponta de sinceridade. Não desmereço religião alguma, desde que dê o conforto que a pessoa procura. O que detesto, como já disse, é o proselitismo. Isso é doentio.


     Tornei-me uma espécie de questionador de tradições. Nisso não há instituição que gostaria de me manter, afinal toda instituição prova seu valor na tradição. Hoje quase ninguém faz algo realmente sincero. Por não haver um produto novo no mercado, todos se baseiam no que já foram. No que fizeram no passado. Matemática é uma ciência cruel em relação a isso. É praticamente a religião da lógica. É isso, sou crente na lógica. Apesar disso fazer muito pouco sentido.


     Minha mãe nunca determinou o que eu deveria ser quando crescer. Creio que fui traumatizado ao contrário a fazer qualquer coisa. Ela sempre disse isso, que eu faria qualquer coisa que quisesse. O problema era saber o que queria. Até hoje não acertei, mas também não tenho pressa. A história religiosa de minha mãe é daquelas de escritores de best-sellers de livros com esta temática. Não, realmente é melhor. Outro dia ela, inocentemente, perguntou se eu não gostaria de me tornar padre. Sinceramente? Seria ótimo. Quer desculpa melhor para sair com roupas espalhafatosas e ainda mais ser respeitadíssimo/temido por todos? Bem que eu queria.


     Desculpe. Mas eu não acredito. Apesar de um pouco de descrença seja fundamental para um clérigo (sim, eu sei do que estou falando), não tenho, pelo menos ainda, aquela sede por controle. Prefiro a liberdade. E isso, só através da educação. E tem como libertar a todos?


15 de novembro de 2011

Pensamento crítico e números anônimos.


     Quem ainda não sabe, até o fim deste ano ao menos, sou professor de matemática de ensino fundamental. Minhas idéias sobre o currículo da escola difere do que penso ser realmente importante. Por exemplo, não houve quem discordasse que é importante saber o perigo do crediário. O problema se dá quando a disciplina é a grande responsável pela desaprovação. O vulgar "rodar de ano". Na minha concepção, o ciclo é o que há de mais próximo do desenvolvimento. 

     Tenho um aluno que, como eu digo, é um balão murcho. É como se fosse um homem miniatura que apenas irá inflar e tornar-se um homem. Colocou piercing no lábio inferior com o auxílio de uma bebida alcoólica e uma batata, segundo ele. Durante um dos testes aplicados, não respondeu aos estímulos. Ou seja, não soube abstrair as informações importantes de alguns dos problemas propostos. Estamos criando uma geração de pessoas que não sabe ler, muito menos interpretar.




Sene- Sene- Sene- Sene- Senegâmbia
     "A Senegâmbia, confederação formada em 1982 entre Senegal e Gâmbia, dois países africanos vizinhos, continha aproximadamente 208.005 km². Quando foi dissolvida em 1989, os dois países voltaram ao formato original. Sabendo que Gâmbia ocupava apenas um quinze avos da extensão territorial da confederação, calcule: a) A extensão territorial do Senegal; b) A extensão terrotorial da Gâmbia."




     Apesar de aparentemente complexo, é uma operação simples disfarçada. Meus alunos já entraram em contato com números maiores do que centenas de milhares, frações de quantidades e espaços, sistema métrico internacional e frações de denominadores até 25. Apesar de que pode parecer para um leitor sonolento que a solução é impossível, tenho certeza que durante uns três anos de sua vida no ensino fundamental, fizeste coisas semelhantes só que anônimas. Não existiam países se dividindo. Apenas números sem sentido.


DANGER!
     Uma pessoa cautelosa o suficiente para provocar uma lesão em uma área sensível e vascularizada como os lábios, com pouco mais de uma década de vida, é muito capaz de não entender exatamente o seu papel na sociedade. Dificilmente será capaz de não se deixar enganar por pesquisas eleitorais maldosamente inexplicados, por vendedores que podem invadir sua área e provar que mesmo sem completar um salário mínimo, pode contrair dívidas exorbitantes (desde que pague a entrada). Outros fatores pesam contra ele. O futuro não é deste. Infelizmente.



     Números sem nomes não existem. Grandezas abstratas não tem função social, senão a lúdica. Toda evolução científica que pode ser representada pela matemática, se não tem nome, é batizado de imediato. Eu pessoalmente chamo os números de nomes e seus atributos como sobrenomes. Oito quilômetros quadrados, sete litros, trinta newtons. Vivemos em um momento onde saber fazer quatorze quintos de duzentos e oito mil e cinco não é mais o suficiente. É preciso saber dizer o sobrenome.




     Há lugar para todos no mundo. Apenas que os lugares mais sofridos estão reservados para quem não sabe ser verdadeiramente crítico. Matemática, se absolutamente abstrata, serve para ensinar o pensamento crítico. Furar a boca com um grampo, conhaque e uma batata não parece um procedimento crítico.


10 de novembro de 2011

Associação livre ou "o dia que fui avô"


     Freud não estava de todo errado. Inclusive, do pouco que li sobre psicanálise e dele, discordamos pouco. Mesmo achando Jung mais simpático. Em pensar que na virada do século XIX, algumas universidades respeitadas mantinham no currículo assuntos hoje retidos pelas páginas de livros infanto-juvenis. Em meio uma salada de frutas ideológicas, nasce um braço da psicologia moderna que tenta explicar como traduzimos os estímulos externos em correntes elétricas transmitidas por pequenos condutores. Ainda sabemos pouco sobre o cérebro, mas observações cada vez mais precisas e com instrumentos tecnológicos inimagináveis na época do pai da psicanálise, nos auxiliam a compreender cada vez mais como essa massa que assemelha-se a um chiclete mastigado, funciona. O foco que percebe-se é o "como" as coisas se encaixam em nossa mente. Um dos pilares práticos dessa perspectiva, é uma das coisas que mais me encanta.

Não é um charuto.
     Em determinado momento de minha vida resolvi ser professor. Desde muito cedo me interessei por didática e ciência. Um dos livros mais interessantes que li até hoje foi um de didática do ensino de física. Neste estavam duas paixões minhas: a ciência dos observadores do mundo e a arte do ensino. É interessante saber como as coisas funcionam mas tão importante quanto isso é poder perpetuar nossas descobertas. Lembro que ainda na sexta série combinei com um colega de classe que iríamos cursar a mesma faculdade, na época seria história. Ele iria para o Egito escavar e eu faria uma escola apenas das descobertas dessa escavação. Nunca esquecerei, afinal foi a primeira vez que outra pessoa fora da família havia considerado a possibilidade de minha profissão futura ser ligada ao magistério. O primeiro a associar a imagem que tinha de minha pessoa a de um ser capaz de ensinar. Se não me engano, claro. 

Cerâmica interplanetária.
     E o que acredito hoje é na livre associação das coisas. Assim a mente funciona. Apesar de parecer estranho, creio que qualquer um que possa ler este texto talvez perceba que temos a mesma fé. É mais simples que um bule de chá em órbita do sol, eu garanto. Simplesmente tudo tem um significado. Simples mesmo. Chega a ser quase bobo. Pense um pouco. O que está procurando ao ler este texto? Dentre várias alternativas há aquelas pessoais (entender como eu penso ou minha opinião) e as mais neutras (aprender algo ou procurar falhas lógicas ou retóricas). Todas as coisas mantém uma característica que busca objetivar a existência da mesma. A forma com que um aparelho eletrônico é desenhado de forma que agrade um determinado grupo de pessoas. A mente do designer busca uma conexão com a mente dos usuários. Isto é associação.


     Quando temos medo, buscamos prontamente em nossas memórias, momentos em que não tivemos medo. Pessoas as quais não permitiriam que sofrêssemos algum mal. Se não existe a possibilidade de um ser humano impedir este processo interno, nos resta seres que possam estar dentro de nós, ocupando o mesmo espaço. Para isso, precisamos além de desafiar leis da física, sucumbir e declarar que a capacidade corporal e psicológica pessoal é insuficiente para proteger a si. Nisso nasce deus. Nietzsche diz como ele morre e eu digo como nasce. Associamos várias características, como etiquetas, em todas as nossas imagens, os arquétipos que tentamos contornar. Quando encontramos dificuldades um tanto mais humanas, mas fora de nossas capacidades, apelamos para aqueles que confiamos. Transferimos nossas responsabilidades e clamamos por ajuda. Em uma sala de aula isso é comum.


"Professor! Acho que não entendi aqui..."
     Tenho um aluno que é disputado entre o pai e a mãe. Nenhum dos dois querem a criança, mas os dois concordam em não deixar com o outro. A situação é tão constrangedora que a guarda deste indivíduo está com uma das avós. Esta avó vive a me procurar, pois é uma daquelas raras pessoas que admiram a rainha das ciências. Sempre quer uma explicação sobre um problema proposto ao neto. Eventualmente me pego sendo assaltado em plena luz do sol, onde esta me subtrai uma ou outra informação sobre alguma observação das atividades. E eu acho isso impressionante. Nunca acertaram tanto com este menino do que quando deixaram-o com a avó. Em um mundo onde as crianças estão cada vez mais abandonados pelos pais, é difícil achar alguém que se importe com o que seu tutelado aprende ou não.


Oh, vô... Quero dizer... Professor!

     Foi o que eu ouvi outro dia na sala de aula. Sinto me lisonjeado. Esta criança mantém a imagem do professor próxima daquela outra que a protege, que a acolheu da fúria dos pais, que provavelmente a ama quase incondicionalmente. A minha imagem. É uma grande responsabilidade.


5 de novembro de 2011

Memória seletiva ou "meu cérebro é emocionante"



     A matemática ensina como pensar de forma genérica. Como ciência, ela aparece internamente em suas irmãs, como física e química, por gerarem modelos do que se pode esperar. Os experimentos dos quais a matemática prevê mais de um comportamento são os mais concorridos. Todos os outros acabam sendo coerentes com o que se calculou. Pensamento lógico-matemático é o que faz um cientista saber que determinado elemento de número atômico X terá as mesmas características dos elementos da sua família, mesmo este (que foi provavelmente responsável pelos poderes das Meninas Super Poderosas) não exista ainda. Através de modelos podemos teorizar como funcionam diversas estruturas, inclusive o corpo humano.

     Quando eu era mais jovem (não posso dizer pequeno, pois não lembro de quando o fui), assisti na televisão um videoclipe que era absurdo. Se tratava de homens subindo escadas para os céus, aviões estrelas atravessando o mundo, uma estátua da liberdade vermelha, exércitos se formando para uma invasão aparentemente pacífica e - a parte mais assustadora- chapéus em forma de vasilhas. Essa ideia era tão nítida que não poderia ser ilusão. Como passei diversos anos sem vê-lo novamente, e depois de ler sobre memória seletiva, tive a certeza que aquilo era uma mistura de coisas que me atraíam (vermelho, mapas, viagens, coisas sem sentido aparente e por aí vai), condensadas na última desfragmentação do meu cérebro.

     A memória pode ser comparada com aquele livro ponto que professores assinam para comprovar que estiveram durante aquele período na escola, dados de entrada e saída. Só porque podemos, não quer dizer que devemos. Afinal se fizerem esta comparação estarão cometendo o maior dos erros possíveis sobre o assunto. Memória é administrada no cérebro e supervisionada pelo nosso processador central que é absolutamente emocional. Muitos pedagogos já vociferam há anos sobre a Memória Emocional, contrária aos métodos mnemônicos. Este nosso livro ponto teria apenas as assinaturas dos professores que são considerados, pelo próprio, mais agradáveis. E os outros dividiriam o espaço em uma nuvem sem sentido de informações nas últimas páginas.  Um experimento fácil para entender como isso funciona é lembrar, sem googlar,  de cinco imortais da Academia Brasileira de Letras. Provavelmente, se sois uma pessoa politicamente engajada, vais lembrar imediatamente de José Sarney. Mais um? Enquanto pensamos nestes, quando se passa para a segunda fase do experimento. Muitos choram apenas ao vasculhar suas mentes. A ideia agora é lembrar de cinco pessoas que nos magoaram, nos marcaram ou até que amamos muito e eventualmente não podemos mais falar com. Nessa parte fica absolutamente mais fácil pois o cérebro indexa arquivos de forma a priorizar como nos sentimos do que a informação em si.

     Com o advento da internet, eu cheguei a procurar por este videoclipe, pois parte de mim sabia que uma estátua da liberdade vermelha não me era de todo agradável. Afinal, seria uma espécie de ucronia onde o comunismo havia vencido e até então não havia lido nada sobre. Procurei muito e por um bom tempo não achei. Estranhamente associei o som da música desta minha lembrança ao que o cantor italiano Eros Ramazzotti consegue produzir. Obviamente a música não era dele. Também associei o vídeo ao Raiden, de Mortal Kombat, mas isso não faz sentido.

     Um trauma pode ser resposta ao processo débil de armazenamento de uma memória que gere conflito com outras estruturas internas do aparelho psíquico. Um acidente, por exemplo, vem contra a todos os projetos e imagens de estima pessoal que podemos ter construído durante muitos anos. Um abuso pode ser praticado por alguém que depositamos nosso afeto por muito tempo. Ou seja, se tiver algum problema com determinada pessoa ou situação, é saudável resolver de imediato. O perigo de nossa memória é de eventualmente piorar certas situações conforme o que sentimos durante a geração do impacto traumático. Apesar de não ser um fiel seguidor de entidade sobrenatural, acredito que a figura do perdão nada mais é do que o sujeito lidando com o seu trauma ou com a iniquidade de outrem.

     O mais interessante disso tudo?

       

18 de outubro de 2011

Aprender hoje.


     Grande parte do que se aprende em ciências exatas justifica o tão odiado cálculo diferencial. Parte das previsões matemáticas, deduções de fórmulas e a própria compreensão da estrutura de padrões podem ser facilitadas com o uso dessa, como posso dizer, ferramenta. Mas a princípio, o sol não deixará de nascer se não souber derivar a função dele em relação ao tempo. Pergunto-me se em determinado nível do aprendizado, vale mesmo aprender certas coisas. Como as propriedades comutativa e distributiva da multiplicação para quem ainda vive mal por não saber administrar seu dinheiro.

Se não souber administrar seu dinheiro, sua matemática é inútil.
     Aprendizado já subentende que alguma coisa do assunto tratado permanece na memória do sujeito. Quando se fala em aprendizado significativo, apesar de parecer redundante, indica uma linha de pensamento pedagógico específica. É quando o que se aprende reage, se acomoda junto das coisas que o sujeito "já sabia". A melhor sensação (sois livre para discordar) é quando uma ruga de incompreensão se desfaz. Seja sua ou de outrem onde tal situação dependa da sua ajuda.

     Assim como o hábito faz o monge, a repetição de diferentes tipos de situações-problemas afia a própria capacidade de resolver problemas. Aquela série de movimentos que se faz nas artes marciais são para acostumar o corpo. Infelizmente matemática não se vê como arte. Afinal, como arte que é, precisa de imersão para ser compreendida.


     Não se gosta do que não se entende. Algum nível de entendimento sobre o objeto possibilita uma melhor apreciação. Se não entender, não se gosta. Pode mentir dizendo que gosta e entende, mas no seu interior sabe que não. Alguém já mentiu que gosta de matemática? Se bem que hoje em dia com essa moda de ser nerd...


     Para conseguir imergir em algo é preciso de profundidade. Assim como Arquimedes teria feito com uma certa coroa, todos os nossos objetos de apreço são imergidos em nosso poço de personalidade. Se for importante, acrescenta e permanece. Muda um pouco quem somos. Se não, é descartado.
  
     Aprendizado significativo é isso. Acabamos por treinar nossas capacidades, utilizando nossas ferramentas já bem afiadas, para desossar a nova informação. Difícil esquecer quando, como diz Rubem Alves, algum assunto é sensual. Tudo pode se tornar sensual conforme apresentado. Precisa mexer com quem somos para ser sensual. Precisa ser sensual para não ser facilmente esquecido.

Ossos não são sensuais.