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29 de dezembro de 2011

Simulação e cultura



     Estamos tão acostumados com simulações que muitas vezes não a separamos da realidade. Por exemplo, você compreende o objetivo social das telenovelas? O poder da literatura indica os anseios do povo. Quando se sonhava com um mundo mais justo, os livros consumidos na época contavam estas histórias. Quando queríamos romances ou aquele confronto com o sistema patriarcal que todos tínhamos guardado, era isso o que se lia.


     O que precisamos pontuar é que a grande maioria da população, cliente da televisão, não estaria lendo. Este aparelho foi além do rádio, e alcança qualquer nível, inclusive aqueles que não são marcados por letras. O que nossa literatura diz hoje dos nossos anseios, pode ser facilmente deformada pela quantidade de pessoas alienadas que cultivamos nestes últimos anos. Não me surpreende saber que livros frágeis como da série Crepúsculo ou até alguns de auto-ajuda-com-açúcar, vendam horrores. Minha esperança é que essa geração evolua a capacidade de leitura. Que fiquem mais exigentes. Que não acabem apenas lendo aquela série de romances do estilo "Bianca" ou "Sabrina".


     Toda e qualquer história contada, jogada, cantada ou sussurrada pode ser uma boa alavanca para grandes leituras. Não quero parecer culto e sugerir Dostoiévski de cara, mas é importante em alguma parte da vida tocar em algum clássico. Como se sabe, para evitar cometer os mesmos erros, precisamos conhecer o passado, nossa história. A perspectiva humana dessa história vem de sua literatura, de sua produção, de suas histórias.


     Alguns personagens, com os quais me identifico, levantam essa questão da simulação. Permito-me interpretar a mensagem condensada: o que verdadeiramente sentimos é real. Se o estímulo externo foi real ou produzido/induzido, faz tanta diferença assim? Não incentivo um culto aos nossos sentimentos, precisamos entendê-los tanto quanto a ausência deles, mas tendo como partida o nosso próprio funcionamento, podemos compreender como é o mundo que nos cerca - e como é nosso mundo ideal.


     Essa ideia vale para todos. Inclusive aqueles aparentemente acéfalos que consomem parte de suas vidas recebendo estímulos doutrinados da mágica caixa colorida. Pensando bem, quantas criaturas, senão poucas, ousam subir acima da margem da lagoa original? Ou apenas, trocar de canal?


10 de dezembro de 2011

Comunicação e call center


     Toda comunicação humana tem camadas de compreensão. Um entendimento profundo sobre determinado assunto depende de um espaço dentro do indivíduo e entrelaçamento de interesses que o sustente. Assim como um detalhe pode deixar de ser percebido por falta do observador, pessoas superficiais tendem a tratar tudo com superficialidade. Apesar desta introdução filosófica, o objetivo deste texto é relatar minha última interação com o call center de minha operadora de telefonia e internet. Ou seja, é preciso muita paciência para contornar esse tipo de situação.


     Estou sem internet em um aparelho móvel que assemelha-se muito com um tablet, mas tem função de smartphone. Meus dedos é que são grandes. Mesmo ainda tendo crédito pré-pago, resolvi garantir e coloquei um pouco mais de dinheiro nesta conta. Interessante é que todas as vezes que isso acontece, apesar de não ser a Mulher Maravilha sem laço ou o Super Man exposto ao cristal que lhe enfraquece, o sinal de internet foge. Resolvi hoje entender o motivo. Claro que poderia ser uma infeliz coincidência, mas ocorreram duas vezes esta situação infeliz.


     Ao ligar para o número sugerido no site da operadora, a primeira atendente foi absolutamente ignorante e inflexível. Senti como se ela estivesse fazendo um favor ao me atender, sendo que eu era o cliente. Como desabafei no twitter, se era para fazer um serviço mal feito, era melhor que não tivesse. Esta primeira atendente disse que, além das configurações de telefones "mais simples", um tablet não está coberto pelo contrato, então eu precisava de um outro plano específico. Senti que falar com o Cleverbot era mais produtivo do que com esta atendente. Em determinado momento eu disse que não acreditava no que ela dizia e pedi que ela me desse as informações de configuração do telefone "mais simples" que eu iria reproduzir no tablet. Ela me passou para uma segunda atendente, do suporte técnico. Sem dar tchau, nem obrigado por sua ligação. Comecei a ficar nervoso.


     A segunda atendente sugeriu que eu contratasse um plano de dados para o tablet. Com toda a educação que tive, disse gentilmente que não precisava de mais dados do que já uso. Parece que a palavra "tablet" é o nome de algum demônio que puxa o pé de profissionais das telecomunicações, pois quando se fala neles, todos se retorcem e até mudam o tom de voz. Como ela não conseguiu me vender o plano de dados, duas vezes mais caro do que gasto hoje, tentou novamente a falácia da promoção não abranger o tablet. Infelizmente, para eles, o contrato não fala isso. Diz que apenas como um modem ou em um computador, estaria fora do plano. Mesmo lendo para ela o contrato, a criatura agiu como uma boa religiosa e não parecia querer resolver meu problema: apenas fazer-me contrair uma úlcera e uma conta de telefone. Quando eu disse que iria desligar a ligação e iniciar tudo outra vez falando em smartphone, como se fosse este meu aparelho, ela resolveu me enviar para o suporte técnico. Eu fiquei surpreso pois achei que já estava neste setor.


     O Carlos me atendeu e salvou o dia. Concordou com meus argumentos, afinal estava baseado no próprio contrato do plano, concordou que as atendentes anteriores realmente estavam mal preparadas para questões mais elaboradas, ou apenas questões elaboradas. Este rapaz ficou na linha comigo uns dez minutos e constatou que havia apenas um problema. Como da outra vez, a resposta só podia ser manutenção. Inclusive este homem explicou o motivo pelo qual muitas vezes a palava manutenção soa como um placebo em telemarketing. Afinal, realmente representa um problema técnico mas que se manifesta totalmente no mundo físico, não havia nada que ele poderia fazer por mim, apenas aguardar. Prometeu ligar no outro dia, já conheceu minha mãe (que é a titular da conta neste aparelho) e foi absolutamente gentil. Acho que iniciei o primeiro Bromance telefônico de minha vida. Uma pena que as moças não foram tão felizes e sinceras quanto este homem. Obrigado, Carlos!


     Percebo nesta situação que a informação que eu precisava estava atrás de duas outras pessoas. Como uma cebola, tive que descascar um pouco para chegar em uma situação mais confortável em relação ao problema que tinha. O que falta? Treinamento? Interesse?


     Em todas as vezes que liguei para contratar algum serviço sempre fui feliz. Quando é para reclamar ou cancelar, sinto que o universo conspira contra minha pessoa. Felizmente não é apenas comigo que isso acontece. Se pensar, a cortina de abobrinhas feita pelos dois primeiros contatos é para evitar incômodo com incluídos digitais. Essa cortina é formada por outros recém herdeiros desses projetos sociais. Assim, semelhantes se confundem e todos ficam aparentemente satisfeitos.



     Ao encerrar a ligação, meu amigo Carlos pediu encarecidamente que eu permanecesse na linha e desse uma nota para o atendimento. Perguntei de imediato se a nota iria para meu novo amigo somente ou era sobre toda a ligação. Como ele me disse que seria apenas para o último atendente, garanti uma nota máxima para ele.


7 de dezembro de 2011

Estou contra deus



     Como já devem ter percebido, sou professor de matemática para um público bastante restrito. A idade média destes alunos é aproximadamente dez anos. Como matemática é a primeira disciplina estritamente científica que se tem no currículo, geralmente causa um certo desconforto para jovens mentes. Afinal, desenhar e pintar é importante, escrever sobre como foram as férias também, mas a primeira vez em que alguém precisa provar algo que registra, é nas aulas desta ciência. Parte da vida de um matemático é desafios. A vida do cientista é recheada de desafios. Adquiri mais um nesta tarde.


Firme em Deus, ele me ajuda!
     Grande parte da população que está sendo irradiada pela matemática com minha perspectiva não consegue assimilar os conceitos debatidos. Indícios responsabilizam os próprios alunos dessa falta de retenção dos assuntos, afinal as notas mais baixas pertencem aos que menos argumentam durante as aulas. A diferença apaixonante entre religião e ciência é que a última exige que suas idéias sejam testadas e, se houver falhas nos testes, contestadas. Já religião é como aquelas comidas congeladas, apenas aperte uns botões e sirva-se. Não pergunte o que foi aquilo que desceu pela sua garganta. Apenas coma. Em minhas aulas procuro deixar isso bem claro: qualquer argumento pode e deve ser questionado até ser provado.


     Um aluno em especial, passou o ano tecendo intrigas entre os colegas, comandando corais com músicas de péssimo gosto, atrapalhando os estudos dos outros e desafiando a autoridade dos professores. Apenas o último item desta lista me é agradável. De resto, este apenas consumiu o precioso ar e o nobre tempo de profissionais da educação. Durante a exposição das notas do ano, afinal em dezembro essa prática se torna funesta, constatei que este indivíduo não teve um aproveitamento razoável o suficiente para avançar de ano. Quando revelei o fato, ele pediu para falar comigo em particular.


     Começou perguntando se eu conhecia a deus. Como não sou bobo, respondi que nunca tive o prazer. O resto do diálogo reproduzirei conforme lembro:


     - Pois professor, Deus e Jesus operam milagres de várias formas... - Eu o interrompi aqui para  evitar alguma parábola como da ovelha perdida ou uma lenda sobre um gigante sendo derrotado por um franzino.


Eu fora, me tira dessa.
     - Mas Miguel (nome fictício), não quero parecer chato, mas não me interessa nem um pouco o que seu deus faz ou deixa de fazer. O teu problema é comigo.


     - Professor, eu vou passar. Eu sei. Deus vai fazer esse milagre na minha vida... Eu tenho orado por isso... - Interrompo novamente.


     - Miguel, se tu usar o tempo que tem rezado para estudar, tenho certeza que sua chance de ser aprovado nas recuperações aumenta. Mas se ficar assim, está só se distraindo. Pega o caderno de alguém, olha os exercícios, faz eles de novo... - Nisso ele interrompe.


     - Não preciso, professor. Vai acontecer um milagre e eu vou passar.


     Neste momento, abri a questão para o grande público, da seguinte forma: 


     - Supondo que exista Deus, qual seria a ação mais provável deste ser: ajudar o Miguel a passar de ano ou fazer qualquer outra coisa pelas pessoas?


     Todos concordaram que se deus existe, não ajudaria o Miguel. A voz do povo é a voz de Deus, não?


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     - Miguel, seu deus terá que passar por cima de mim. E isso não é justo.


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     O pior é que sei exatamente com o quê estou mexendo. Já estive nessa situação. E foi a melhor coisa que me aconteceu. Afinal, não é justo transferir a sua responsabilidade para outrem. Muito menos alguém que não pode se defender. Prevejo uma decepção catastrófica na vida deste garoto onde ele terá que escolher entre olhar para o sol até ficar cego ou começar a tomar as rédeas da própria vida nas mãos.


     Se tem algo que gosto de fazer é corrigir provas e trabalhos. Penso, a cada questão, na pessoa que a realizou. Apesar de algumas respostas serem previstas em um gabarito, me interessa muito mais como o indivíduo chegou ao resultado. Conhecendo a pessoa, sei dizer se, mesmo um erro de cálculo, merece ser visto como uma evolução. Me considero uma pessoa justa, em relação a isso. Se o deus de Miguel é real, uma de suas características é ser absolutamente justo. Se fizer o milagre acontecer, não seria uma ação digna de justiça. Isso implica no fato de que eu seria mais justo do que esse deus. Logo, eu estou mais próximo da divindade cristã do que este para quem Miguel direciona suas preces.


     Na prova final esperava encontrar um Miguel consciente de que o tempo que perdeu durante o ano foi nocivo ao desenvolvimento deste. Mas vou encontrar um fanático. Infelizmente a ciência, que este ignora, poderia ajudá-lo a tornar-se uma pessoa mais tolerante ao fracasso, palavra que não existe no vocabulário de um religioso.


6 de dezembro de 2011

Teoria do caos ou "pessoas aleatórias"



     Antes de sair da escola, fui surpreendido por uma senhora que perguntava se eu sabia onde era o diretório do partido político que detém a prefeitura da cidade. Apesar de ter ficado desnorteado por uns instantes, tentando compreender a linha de raciocínio entre a minha pessoa e o prefeito, respondi prontamente que não sabia.


     Sou uma daquelas pessoas que fala muito. E pelo nível de surdez, falo um tanto mais alto do que o comum. Lembro de ter sido repreendido uma vez pelo comprimento de minha barba e da altura do meu falar. O argumento era algo como "mulheres não gostam de exageros". Quem me conhece sabe que procuro não deixar as opiniões da moda ditarem como devo me comportar ou com quem parecer. Ou seja, não estava muito preocupado se estava sendo exagerado. Procurava sempre ser o mais autêntico possível. E não posso explicar como me é estranho esse tipo de comentário surgindo de uma fonte aleatória. Principalmente responsabilizando um gênero, usurpando a opinião das mulheres, para dar-me uma aula de como funciona a sociedade.


     A senhora vinda da nuvem de caos contou-me que em sua sofrida vida, apenas um homem a ajudou no passado, quando precisava cuidar dos filhos pequenos enquanto o esposo trabalhava distante da terra natal. Este homem havia lhe favorecido perante alguma secretaria de assistência, coisa que na época, segundo a mesma, não era autônoma como hoje. Este mesmíssimo homem ocupa hoje o cargo de prefeito da cidade. E, para esta senhora, será lembrado como o salvador de sua angústia. Convenhamos, segundo ela, eram seis crianças que dependiam dela e precisavam de um lar. Qualquer mão que ajudasse, seria lembrada com carinho.


     Quando agimos, explicando de forma exagerada, movemos as cordas onde estão atadas nossas vidas, os cenários e objetos em nossa realidade. Quando temos uma boa ideia, agimos de forma benevolente, é como se pela perspectiva dos favorecidos, nossa presença fosse desejada e nossos relacionamentos se estreitassem. Quando há a ofensa gratuita, o desconforto impera entre os seres. Mesmo sabendo lidar com as críticas, quando a palavra é afiada (e envenenada) de forma a causar dano, gera mágoa. E para isso não há solução. A mágoa é o calo da alma. Uma lesão que deforma e machuca. Passa a ser parte indistinguível do corpo.


     Muitos talvez não saibam como é ser lembrado por ter ajudado alguém, por ter sido importante em um momento delicado, de uma palavra de conforto ou ânimo durante um período de desespero. Uma ação nossa, tão superiores em nossos próprios egos, pode mudar a vida e a perspectiva de um semelhante, principalmente quando sensibilizado pelos apuros da vida.


     Esta senhora quase chorou ao lembrar como foi bom descobrir que o mundo poderia ser um pouco mais agradável quando se conhece as pessoas certas.


     A vida não é justa. É composta por pessoas. Pessoas não são justas. Ainda bem.


3 de dezembro de 2011

Fala que eu acredito ou "da mágoa nasce o forever alone"



     Sempre acreditei em tudo que me diziam. Afinal, por que mentiriam sobre um novo jogo ou episódio do desenho mais esperado da infância? Não seria uma sabotagem contra nossa amizade andar pelos caminhos tortuosos da mentira? Sim, cada vez mais percebo como fui (e sou) tolo.


     Eu era aquela criança obesa que não silencia, sempre fiz muitas perguntas sobre tudo. Até hoje se ficar minutos em um diálogo, engato a marcha e procuro saber o que meu interlocutor entende como vida, o universo e tudo mais. E tenho aprendido muito com isso. Simultaneamente carrego o fardo de verificar fontes e passos lógicos. Afinal, posso não saber se é uma inverdade, mas se for mal construído, o argumento se torna falacioso. Quando criança sabia apenas dois números de telefone: o da polícia militar e de um colega de escola. Era um dos únicos que andavam comigo durante o período letivo no ensino fundamental e eventualmente nos víamos ao longo do dia.


     Cometemos este equívoco  de considerar todo e qualquer indivíduo de idade avançada, um sábio. Infelizmente esta não é nossa realidade. Mesmo assim, cláusulas do nosso contrato social de boa convivência exige que os tratemos como senhores e senhoras, como se fosse um título nobiliárquico. Outro erro.


     Este meu amigo de escola chamava meus pais pelos nomes. Isso era uma revolução, que fiz questão de retribuir. Uma pena que seus pais não eram tão liberais assim.


     Obeso que sou, passei boa parte de minha vida comendo. Inclusive quando saía, provavelmente um dos destinos seria uma pausa para refastelar-me com alguma subespécie de fast food. Ao telefonar para meu companheiro de trilhas gastronômicas, este me surpreende dizendo que está doente, o suficiente para não sair de casa. Resolvo remarcar um compromisso para a noite. Como era um jantar próximo ao local onde eu teria ido com meu amigo, resolvo buscar uma água mineral no local e tentar reconhecer alguém, uma espécie de teste social, se me cumprimentavam por ser eu ou por acompanhar o, então, adoentado colega.


     A grande diferença entre contar uma mentira e contar uma verdade é que para a última, a natureza nos é testemunha. Os fatos ocorrem naturalmente. Quando se mente, cada lacuna precisa ser coberta. Isso exige mais trabalho. Como tenho uma memória limitada, não posso me dar o luxo de grandes invenções.



     Minha surpresa foi quando vi este meu, até então enfermo conhecido, em pé, onde provavelmente estaríamos. Como sou tolo, fui congratular a recuperação rápida do mesmo. Este, junto com outros dois, iniciaram a marcha da vergonha para qualquer direção que não fosse a minha.


     Para quem tem esta visão romântica da vida, como eu, é triste ser enganado. Afinal, se uma pessoa diz ser seu amigo, você espera o no mínimo colaborar com as atividades coletivas lúdicas, inclusive a segregação dos grupos. Que seja escolhido para jogar handebol, mesmo não sendo a melhor opção, mas para que joguem no mesmo time. Que seja convidado para comemorar uma recuperação rápida e sem sequelas das diversas indisposições da vida. Que chore e ria em conjunto. Ou seja, aprendi muito cedo a ser ímpar. E isto é a pior coisa com que se pode acostumar, a solidão.


     Quando alguém mente, como mostrado em diversos seriados, acaba por agir de forma ligeiramente diferente do comum. Como piscadelas, torcer os dedos, balançar-se na cadeira e muitas outras atitudes suspeitas sugerem. Ao perceber minha presença, levantar e sair na marcha tétrica, atestou a maldade investida no ato.


     Tenho uma péssima memória para dados comuns. Infelizmente coisas que magoam, não somente a mim, mas situações emocionalmente desastrosas que aconteceram ao meu redor, lembro-as como se tivessem ocorrido neste fim de semana.


     Depois do evento, percebi que era eu quem corria atrás destes infelizes. Eu quem gastava telefone e preocupação com suas pessoas e famílias. Decidi apenas não fazê-lo. E para minha surpresa, não me foi difícil permanecer aquele primeiro ano sem um cumprimento. Muito menos o outro ano até o primeiro diálogo após o fato. Não tenho mais interesse em falar com estes indivíduos sobre o ocorrido, apenas agradeço por mostrarem para este que vos fala que o mundo é repleto de pessoas que podemos confiar. Precisamos apenas encontrá-los. E não desistir em cada tropeço como o meu, ou contentar-se com fragmentos verdadeiros em meio ao abrolho. Contentar-se é pior que desistir.


     Isto ocorreu em idos de 2001. Como não sou deus, eu posso até perdoar, mas não esqueço. Jamé [sic].


1 de dezembro de 2011

Amigo secreto ou "despertadores de dezembro"



     Nunca fui favorável ao ritual de passagem escolar baseado na troca de presentes e confraternização. Talvez por ser frequentemente alvo de chacota com objetos que exaltavam alguma característica indesejável que possuía. Ou talvez por quando não recebia estas estatuetas da repulsa, era presenteado com a ausência do infeliz que havia sido amaldiçoado e precisava encontrar uma forma de não quebrar a corrente nem ofender os indivíduos naquele recinto. Ou despertadores. Eu recebi uns cinco em minha vida acadêmica.


     Como é frequente este evento, percebemos nestes que no mundo há espaços para todos. Inclusive aqueles que não se contentam em não saber fazer graça, contam piadas descontextualizadas. Não há como ser feliz em um lugar destes. É a premiação dos esteriótipos, a exposição das diferenças e degradação da sociedade, mesmo quando não há bebidas alcoólicas envolvidas. Afinal, açúcar mascavo e água são suficientes para casuar dano nos nossos instrumentos de percepção do ridículo.


     É sua última chance de dizer aos colegas o que realmente sente. Grande parte dos que atormentaram o aprendizado ao longo do ano não estarão na próxima série. Agradeça-os por ocuparem espaço de outros que poderiam competir com sua pessoa. Lamente não existir esta competição. Deixe claro o que realmente acha da situação. Afinal, pouca coisa escolar se faz depois deste período, quem passou, passou. Quem não, está só consumindo um pouco mais da paciência de seus professores.


     Sugeri para uma turma, um amigo secreto diferente. Ao invés de haver a possibilidade de receber um despertador, como nas outras vezes, apostei no presente-arte. Como um bom conselheiro que sou, daqueles que ouve e pondera todas as opiniões contrárias, decidi sozinho que era isso ou não haveria festa alguma. Não posso exigir que um grupo tão heterogêneo se deforme ao dinheiro e comprarem objetos de baixa qualidade. Não lembrarão, no próximo ano, da caneta, meia ou despertador. Mas, há chance de serem tocados por uma poesia, desenho ou música criada. Exijo muito?


     Um querido já manifestou que será uma grande produção de lixo. Quando algum objeto carrega um poder emocional, não pode virar lixo pois tornou-se um símbolo. Tanto positivo quanto negativo. E apenas os insensíveis não reconhecerão. Estes apenas produzem resíduos, não criam. Mas estavam lá mesmo antes deste evento. Mas não precisam permanecer assim.


     Apesar de parecer um tanto ousado, afinal o que garante que não desenharão seus colegas da pior forma possível, na mais triste situação? Nada. Gostaria que fossem mais autônomos, que, ao observar todos os dias do ano em que passaram juntos, não se deixem levar por pequenos conflitos deste último dia. Isso é perspectiva. Quando se vê as coisas de um ponto de vista privilegiado, se percebe os padrões do coletivo. Se puder acompanhá-los, saberá o que fazer em todos os momentos. Entenderá que a risada deste infeliz é a lâmina que magoa quem teve o azar de ser obrigado a receber um presente desgraçado.


     E como lidar com as piadas ruins contadas por pessoas que você nem conhecia a voz? Pense um pouco, pode ser a única vez que esta pessoa se sentiu livre o suficiente para apostar em um cavalo perdido, sua piada manjada. O único momento que permitiu-se expor.


     Se forem livres, saberão transferir com sua arte a liberdade que vêem uns nos outros.


     Amigo secreto em escola, indica que o ano está acabando. Toca agora o despertador para dizer-nos: é dezembro. Podia ser pior. O despertador poderia dizer "então... é natal..." e exigir saber o que fizemos. Ou até chorar por cidades que não estão próximas que sofreram em uma guerra criada por infelizes que nem vivo mais estão.


30 de novembro de 2011

Herdeiros da terra



     Apesar de não haver uma resposta de todo o grupo, sou responsável da educação matemática de indivíduos bastante heterogêneos e desmotivados. Ou seja, praticamente o perfil de todo o ensino fundamental em todas as escolas que visitei, trabalhei, observei ou ouvi falarem. Estamos em um momento especial, do qual futuras gerações agradecerão ou apagarão de suas memórias. Depende do que faremos para modificar nossa realidade.


     Creio que todos saibam que um polígono, palavra herdada que significa "muitas aberturas" ou "muitos ângulos", é uma figura geométrica que obedece a uma lei: espaço limitado por segmentos de reta. Ou seja, será uma figura com os lados "retos" e sem "furos". A forma com que se trabalha este tipo de conceito pode facilitar a compreensão da geometria euclidiana. Palitos em punhos, a atividade consistia em construir estes entes com o material.


     Ao longo da vida, precisamos lidar com a perda e o ganho. Parte desta perda pode ser amortecida com nossa capacidade de negociar. Creio que se um indivíduo deixa a escola com a capacidade plena de negociar, esta cumpriu sua meta social. Quando se negocia, se pondera valores, considera-se argumentos e tudo culmina em tomadas de opinião. Comprar ou não comprar, ter um filho ou não, casar-se ou apenas esperar um pouco mais são assuntos que podem ser transformados facilmente em um debate, pois geralmente envolvem o ganho ou perda de uma outra pessoa.


     Apenas um palito cada aluno recebeu. Obviamente o primeiro desafio foi descobrir como fazer um polígono de um único lado. Em seguida, os mais adiantados, já se reuniam em trios, já que o polígono com menor número de lados seria um triângulo. Quando propus aumentar o número de lados, naturalmente foram negociando os lados pertencentes aos colegas. Por fim tínhamos duas grandes figuras, mas a exigência agora fazia com que pudesse existir apenas uma. Houve uma guerra. Toda a diplomacia exercida até então precisava ser revista. Conforme a atividade se desenrolou, percebeu-se que apenas os bons negociantes e estrategistas, apesar da atividade simples, ficaram até o fim com suas vontades satisfeitas.


     Percebi que, apesar da luta, todos entristeciam quando percebiam que seu palito acabaria fazendo parte da figura singular, que representaria toda a turma. Como se tomados por uma doença, entregavam-se ao intento do grupo. Toda a força do pequeno corpo do último possuidor de um dos lados do um polígono, fazia força para não entregar seu tesouro. Mas o coletivo vencia. Coletivo controlado por estes agentes caóticos, os diplomatas e estrategistas.


     Estes seres especiais herdarão os reinos da terra.


15 de novembro de 2011

Pensamento crítico e números anônimos.


     Quem ainda não sabe, até o fim deste ano ao menos, sou professor de matemática de ensino fundamental. Minhas idéias sobre o currículo da escola difere do que penso ser realmente importante. Por exemplo, não houve quem discordasse que é importante saber o perigo do crediário. O problema se dá quando a disciplina é a grande responsável pela desaprovação. O vulgar "rodar de ano". Na minha concepção, o ciclo é o que há de mais próximo do desenvolvimento. 

     Tenho um aluno que, como eu digo, é um balão murcho. É como se fosse um homem miniatura que apenas irá inflar e tornar-se um homem. Colocou piercing no lábio inferior com o auxílio de uma bebida alcoólica e uma batata, segundo ele. Durante um dos testes aplicados, não respondeu aos estímulos. Ou seja, não soube abstrair as informações importantes de alguns dos problemas propostos. Estamos criando uma geração de pessoas que não sabe ler, muito menos interpretar.




Sene- Sene- Sene- Sene- Senegâmbia
     "A Senegâmbia, confederação formada em 1982 entre Senegal e Gâmbia, dois países africanos vizinhos, continha aproximadamente 208.005 km². Quando foi dissolvida em 1989, os dois países voltaram ao formato original. Sabendo que Gâmbia ocupava apenas um quinze avos da extensão territorial da confederação, calcule: a) A extensão territorial do Senegal; b) A extensão terrotorial da Gâmbia."




     Apesar de aparentemente complexo, é uma operação simples disfarçada. Meus alunos já entraram em contato com números maiores do que centenas de milhares, frações de quantidades e espaços, sistema métrico internacional e frações de denominadores até 25. Apesar de que pode parecer para um leitor sonolento que a solução é impossível, tenho certeza que durante uns três anos de sua vida no ensino fundamental, fizeste coisas semelhantes só que anônimas. Não existiam países se dividindo. Apenas números sem sentido.


DANGER!
     Uma pessoa cautelosa o suficiente para provocar uma lesão em uma área sensível e vascularizada como os lábios, com pouco mais de uma década de vida, é muito capaz de não entender exatamente o seu papel na sociedade. Dificilmente será capaz de não se deixar enganar por pesquisas eleitorais maldosamente inexplicados, por vendedores que podem invadir sua área e provar que mesmo sem completar um salário mínimo, pode contrair dívidas exorbitantes (desde que pague a entrada). Outros fatores pesam contra ele. O futuro não é deste. Infelizmente.



     Números sem nomes não existem. Grandezas abstratas não tem função social, senão a lúdica. Toda evolução científica que pode ser representada pela matemática, se não tem nome, é batizado de imediato. Eu pessoalmente chamo os números de nomes e seus atributos como sobrenomes. Oito quilômetros quadrados, sete litros, trinta newtons. Vivemos em um momento onde saber fazer quatorze quintos de duzentos e oito mil e cinco não é mais o suficiente. É preciso saber dizer o sobrenome.




     Há lugar para todos no mundo. Apenas que os lugares mais sofridos estão reservados para quem não sabe ser verdadeiramente crítico. Matemática, se absolutamente abstrata, serve para ensinar o pensamento crítico. Furar a boca com um grampo, conhaque e uma batata não parece um procedimento crítico.


14 de novembro de 2011

Sou religioso - em um universo paralelo.



     Não sou religioso. Apesar de ter participado de diversos movimentos de tão igualável pluralidade de orientações filosóficas e correntes religiosas, não sobrou nada daquilo em minha pessoa. Realmente por muito tempo eu quis acreditar em alguma coisa. Quando percebi que mais importante do que eu quero é a verdade, eu entendi que poderia depositar crédito em uma pedra que esta permaneceria sendo inanimado. Isto não reforçaria sua existência já bastante sólida. Não faria a menor diferença. Como um defensor da liberdade de pensamento, também todos têm o direito de acreditar no que quiser. Inclusive em aparelhos de chá orbitando o sol. O que me deixa um tanto preocupado é a dicotomia de reações quando se trata do relacionamento dos seres humanos com extra-planares.


     Uma das poucas coisas que não ouso discorrer é sobre múltiplas dimensões. Apesar de semelhante aos paradigmas de tempo-espaço, estas não me chamam a atenção. Questões de espaço-tempo trazem com nova roupagem grande parte de nossa lógica clássica. Uma forma de encantar os pequenos com assuntos empoeirados. Já a possibilidade de existir outros 'eus' paralelos, não me agradam. Não que eu queira ser único, mas saber que existam outros semelhantes já me deixa um pouco preocupado. Imagina se existirem seres idênticos! E segundo O Confronto, outro tedioso filme do Jet Lee, temos todos um equilíbrio de energia potencial. Ou seja, algum outro eu é feliz por nós dois.


     Lembro de ter presenciado uma criatura que se dizia ligada a uma divindade da moda, ridicularizar uma outra pessoa por não serem praticantes de uma mesma religião e não cultuarem esta mesma divindade. Simplesmente patético, pois mais da metade dos argumentos não eram lógicos e todos eles poderiam muito bem ser usados contra o primeiro se substituíssemos os papéis. Infelizmente procuramos exaltar o que nos faz diferente e se agimos semelhante a outro, criamos a ilusão da originalidade. Pense bem. Se Deus existe, proselitismo é o demônio.


     Se alguma divindade for defendida como se vivesse em uma outra dimensão paralela, poderia ser qualquer um de lá que tenha conseguido se comunicar com um dos nossos. Não há necessidade de manter todas as alegorias e tradições como verdades irrefutáveis. Se algo carrega essa característica por imposição, algo está muito errado. Conheço alguns que perderam seus deuses para os remédios. Onde está a grande verdade irrefutável que sai pelo lado oposto de onde entra um fármaco psicotrópico? E talvez fosse o tempo todo alguém de outra dimensão alertando-nos sobre descobertas deles que poderiam nos ajudar. Ou não.


     Em um mesmo programa de televisão vi sendo desmerecido uma pessoa que se dizia seguidora de lúcifer. E outra, que dizia carregar um dom divino, ser aconchegado pelo rosto sublime e claro de expressão serena que todos fazem quando são surpreendidos por este tipo de resposta óbvia. Qual a diferença das duas ações? Apesar do primeiro ser bastante ignorante, demonstrava uma espécie aparente revolta contra um fragmento intocável do pensamento social, a religião. O outro era o avatar do status quo. Não me impressiono com mais nada nesta vida, creio eu. Afinal, sou da geração que viu Mamonas Assassinas e Lady Gaga. Sou favorável ao livre culto. Desde que não em minha casa.


     Se existem universos paralelos, onde a diferença entre cada um deles pode ser apenas uma característica ou objeto, em algum deles sou um religioso fervoroso, assim como em outros posso ser um criminoso. E uma intersecção entre estas características seria uma boa história em quadrinhos. Se em um destes universos eu estou neste momento escrevendo com uma camiseta roxa, neste sou feliz. Mas acho um tanto difícil acreditar que em qualquer um destes exista alguma divindade.



10 de novembro de 2011

Associação livre ou "o dia que fui avô"


     Freud não estava de todo errado. Inclusive, do pouco que li sobre psicanálise e dele, discordamos pouco. Mesmo achando Jung mais simpático. Em pensar que na virada do século XIX, algumas universidades respeitadas mantinham no currículo assuntos hoje retidos pelas páginas de livros infanto-juvenis. Em meio uma salada de frutas ideológicas, nasce um braço da psicologia moderna que tenta explicar como traduzimos os estímulos externos em correntes elétricas transmitidas por pequenos condutores. Ainda sabemos pouco sobre o cérebro, mas observações cada vez mais precisas e com instrumentos tecnológicos inimagináveis na época do pai da psicanálise, nos auxiliam a compreender cada vez mais como essa massa que assemelha-se a um chiclete mastigado, funciona. O foco que percebe-se é o "como" as coisas se encaixam em nossa mente. Um dos pilares práticos dessa perspectiva, é uma das coisas que mais me encanta.

Não é um charuto.
     Em determinado momento de minha vida resolvi ser professor. Desde muito cedo me interessei por didática e ciência. Um dos livros mais interessantes que li até hoje foi um de didática do ensino de física. Neste estavam duas paixões minhas: a ciência dos observadores do mundo e a arte do ensino. É interessante saber como as coisas funcionam mas tão importante quanto isso é poder perpetuar nossas descobertas. Lembro que ainda na sexta série combinei com um colega de classe que iríamos cursar a mesma faculdade, na época seria história. Ele iria para o Egito escavar e eu faria uma escola apenas das descobertas dessa escavação. Nunca esquecerei, afinal foi a primeira vez que outra pessoa fora da família havia considerado a possibilidade de minha profissão futura ser ligada ao magistério. O primeiro a associar a imagem que tinha de minha pessoa a de um ser capaz de ensinar. Se não me engano, claro. 

Cerâmica interplanetária.
     E o que acredito hoje é na livre associação das coisas. Assim a mente funciona. Apesar de parecer estranho, creio que qualquer um que possa ler este texto talvez perceba que temos a mesma fé. É mais simples que um bule de chá em órbita do sol, eu garanto. Simplesmente tudo tem um significado. Simples mesmo. Chega a ser quase bobo. Pense um pouco. O que está procurando ao ler este texto? Dentre várias alternativas há aquelas pessoais (entender como eu penso ou minha opinião) e as mais neutras (aprender algo ou procurar falhas lógicas ou retóricas). Todas as coisas mantém uma característica que busca objetivar a existência da mesma. A forma com que um aparelho eletrônico é desenhado de forma que agrade um determinado grupo de pessoas. A mente do designer busca uma conexão com a mente dos usuários. Isto é associação.


     Quando temos medo, buscamos prontamente em nossas memórias, momentos em que não tivemos medo. Pessoas as quais não permitiriam que sofrêssemos algum mal. Se não existe a possibilidade de um ser humano impedir este processo interno, nos resta seres que possam estar dentro de nós, ocupando o mesmo espaço. Para isso, precisamos além de desafiar leis da física, sucumbir e declarar que a capacidade corporal e psicológica pessoal é insuficiente para proteger a si. Nisso nasce deus. Nietzsche diz como ele morre e eu digo como nasce. Associamos várias características, como etiquetas, em todas as nossas imagens, os arquétipos que tentamos contornar. Quando encontramos dificuldades um tanto mais humanas, mas fora de nossas capacidades, apelamos para aqueles que confiamos. Transferimos nossas responsabilidades e clamamos por ajuda. Em uma sala de aula isso é comum.


"Professor! Acho que não entendi aqui..."
     Tenho um aluno que é disputado entre o pai e a mãe. Nenhum dos dois querem a criança, mas os dois concordam em não deixar com o outro. A situação é tão constrangedora que a guarda deste indivíduo está com uma das avós. Esta avó vive a me procurar, pois é uma daquelas raras pessoas que admiram a rainha das ciências. Sempre quer uma explicação sobre um problema proposto ao neto. Eventualmente me pego sendo assaltado em plena luz do sol, onde esta me subtrai uma ou outra informação sobre alguma observação das atividades. E eu acho isso impressionante. Nunca acertaram tanto com este menino do que quando deixaram-o com a avó. Em um mundo onde as crianças estão cada vez mais abandonados pelos pais, é difícil achar alguém que se importe com o que seu tutelado aprende ou não.


Oh, vô... Quero dizer... Professor!

     Foi o que eu ouvi outro dia na sala de aula. Sinto me lisonjeado. Esta criança mantém a imagem do professor próxima daquela outra que a protege, que a acolheu da fúria dos pais, que provavelmente a ama quase incondicionalmente. A minha imagem. É uma grande responsabilidade.