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11 de dezembro de 2011

Conto: Responsável



     Tudo lhe passava na frente dos olhos. Assim como dizem os livros e filmes que não teve o prazer de apreciar, toda a vida vinha lhe cobrar tributos. Teve a certeza de que havia lugares maravilhosos no, recentemente apresentado, mundo pois apenas em um contraste poderiam ser tão rudes e violentos. Essa maldade toda não pode ser o que há além das montanhas ou do mar. Existia sim uma mão invisível que movia países como peças de um jogo. A forma com que comandava era através da dúvida e do dinheiro.


     Tinha uma filha que havia morrido junto da mãe, as duas abusadas e metralhadas por serem consideradas dele, aquele que ousou se manifestar. Apesar da dor no peito, não conseguia pensar em outra coisa senão nelas. Na dor que sentiram. Ponderou por uns instantes se a felicidade que proporcionavam era recíproca, se os anos de vida delas havia sido suficientemente alegres para que a humilhação e pânico não as deixaram tensas ao atravessar para o outro lado. Intrigante como era exigente, na hora da própria morte pensava se havia sido um bom esposo e pai. Em um momento racional considerou que havia errado em constituir família e ter amado, mas o sorriso das duas espantou qualquer questão. Tê-las feito feliz foi sua felicidade.


     Os colegas estavam furiosos, desde cedo. Dava para ver em seus olhos vermelhos de fogo. Não é todo dia que missionários do mundo moderno começam a cobrar pelos avanços cedidos. Durante a espiral tétrica de queda, pode constatar que todos, inclusive os agressores, hesitaram por aquele instante. Ele via no olhar do melhor amigo o desespero. Cogitou que fosse relacionado com aquela vez que tentaram pescar juntos e não tiveram sucesso, acabaram por ter que comer raízes por mais um tempo. Sentiu-se responsável pela situação, afinal havia pedido a ajuda do amigo. Poderia ser também da vez que a filha pequena do amigo ficou doente e não chegaram no hospital por falta de combustível. Sempre se responsabilizava por tudo e chorou a morte de uma filha duas vezes, esta do amigo querido e semana passada, da filha de sangue. Então percebeu que o desespero era sobre aquele momento. Mas quando toda sua vida passa diante dos olhos, não se sabe mais exatamente qual história vem depois. As experiências mais traumáticas competem para explicar os comportamentos mais extremos.


     Pensou bem e concluiu que até o hospital é proveniente do progresso. Neste momento a dor no peito piora ao lembrar da matriarca da tribo que era ignorada diariamente após a chegada deste progresso. Aquela senhora nunca quis o mal de ninguém, mas parte dos homens de cor estranha que invadiram o seu país diziam que ela era representante direta de algum inimigo. Pobre senhora, ficou só. Como será que está agora? Sentiu-se mal, não só pela perda do equilíbrio e queda, mas por perceber que foi ingênuo quando os homens estranhos venderam a ideia de paraíso, melhor do que seu Éden particular que mantinha em sua comunidade. Se tivesse lido o primeiro capítulo do livro sagrado deles, teria feito a analogia da serpente, teria chamado seu lugar feliz de Éden. Não sabia os nomes, mas sentia-se no paraíso. Até a chegada dos outros. Poderia haver um hospital sem ter que suportar todo o resto?


     As pernas dobram de uma forma estranha, deixaram de procurar a forma mais confortável. Afinal, não há conforto na morte. Olhou novamente para os agentes do progresso, que com suas armas mágicas tentavam remover seu espírito através de um som alto e queimação no peito. O sangue subia pela garganta, cuspiu um pouco, olhou nos olhos de seu algoz e pronunciou suas últimas palavras.


- Eu não sou dessa sua raça.


     Nunca mais teve dúvidas. Nem dinheiro. E por isso não conseguiriam-lhe roubar o espírito.


8 de dezembro de 2011

Vocação ou escravidão?



     Você já deve ter ouvido algo sobre vocação. Independente da orientação filosófica-religiosa, geralmente se trata de uma espécie de "chamado" que o indivíduo "tem" para realizar determinada tarefa. Se dá muita ênfase quando esta tarefa tem ligação direta com os interesses da instituição que ensina esse tipo de coisa. Como uma igreja, quando anuncia o tema, procura despertar jovens para que herdem os trabalhos da mesma.


     Vocação tem uma origem etimológica semelhante ao atual "chamado". Apesar de nem sempre ter alguma ligação, um poço e uma menina que atravessa o televisor, um chamado é basicamente alguém ordenando outrem para determinada posição ou atitude. Como Moisés chamou os hebreus ao deserto, vocação tem essa característica da atitude. É diferente de algum dom que o indivíduo carregue, este está mais para uma disposição maior a determinada área. Um chamado é uma espécie de convite para, muitas vezes, utilizar-se dos dons que se tem. Uma pessoa comunicativa pode se tornar um bom professor ou político, mas pode ter uma vocação para a assistência jurídica. Nem todo dom é ligado de imediato ao chamado.


     E você lê isso e pensa que algo neste texto está quase religioso. E realmente é de propósito. Afinal, o que gostaria de também tratar é o sujeito que executa o chamado. Quem o obedece já sabemos, somos nós (ou os outros). Como disse, dependendo da orientação religiosa, pode ser uma divindade que faz este chamado. Mas a sequência aleatória de fatos da vida podem também realizar vários chamados. E isso é muitas vezes traduzido como se fosse alguma exigência de uma entidade espiritual para legitimar, de forma intangível, sua missão. Uma bobagem que se repete ainda nos dias de hoje. Acredite. Não precisamos transferir nossas responsabilidades e vontades para outrem.


     Outro dia encontrei um antigo colega de escola, enquanto saía da instituição onde completamos o ensino fundamental. Este me pergunta o que eu fazia, eu prontamente respondi que estava ensinando. Eu era professor daquela nossa velha escola. Ele não lembrou de imediato, coisa que eu fiz questão dizer: prometemos um ao outro que seríamos professores. Na época ainda seria de história.  Por alguns anos procurei fazer outras coisas, mas acabei voltando para esta carreira, pois não tenho grandes ambições financeiras e gosto de resolver problemas em conjunto. Nada mais justo. Era isso ou desenvolver para a web, mas não gosto tanto assim de café. Já meu antigo colega é policial militar. Seria alguma espécie de chamado?


     A questão que gostaria de levantar é: somos escravos do chamado, desta vocação? Sinto uma tristeza enorme quando as pessoas deixam transparecer que tiveram um grande conflito contra sua própria vocação mas acabaram cedendo por ser a coisa certa. Como se isso valorizasse o produto.


     Em minha opinião, é uma questão de escolha. Posso ter um dom para o desenho mas com disciplina posso refinar minhas técnicas. Para quem quer escrever é importante ser um bom leitor. É interessante saber como se reproduz para que se evite fazê-lo. Isso é como tratamos um eventual dom, aqueles pontos que estavam sobrando em nossa ficha pessoal. Já uma vocação pode ser sumariamente negada. Dela não somos escravos. E sim de nossas vontades. E isso é uma característica encantadora nos seres humanos: a obstinação de seguir o que quer.


     A vida nos chama o tempo todo. Aceitamos apenas os chamados que mais nos agradam. Lembre quando ouvir o próximo dizer que "tentou fugir" de sua vocação, que este pode estar mentido e realmente estar fugindo daquilo que deveria estar fazendo.


7 de dezembro de 2011

Estou contra deus



     Como já devem ter percebido, sou professor de matemática para um público bastante restrito. A idade média destes alunos é aproximadamente dez anos. Como matemática é a primeira disciplina estritamente científica que se tem no currículo, geralmente causa um certo desconforto para jovens mentes. Afinal, desenhar e pintar é importante, escrever sobre como foram as férias também, mas a primeira vez em que alguém precisa provar algo que registra, é nas aulas desta ciência. Parte da vida de um matemático é desafios. A vida do cientista é recheada de desafios. Adquiri mais um nesta tarde.


Firme em Deus, ele me ajuda!
     Grande parte da população que está sendo irradiada pela matemática com minha perspectiva não consegue assimilar os conceitos debatidos. Indícios responsabilizam os próprios alunos dessa falta de retenção dos assuntos, afinal as notas mais baixas pertencem aos que menos argumentam durante as aulas. A diferença apaixonante entre religião e ciência é que a última exige que suas idéias sejam testadas e, se houver falhas nos testes, contestadas. Já religião é como aquelas comidas congeladas, apenas aperte uns botões e sirva-se. Não pergunte o que foi aquilo que desceu pela sua garganta. Apenas coma. Em minhas aulas procuro deixar isso bem claro: qualquer argumento pode e deve ser questionado até ser provado.


     Um aluno em especial, passou o ano tecendo intrigas entre os colegas, comandando corais com músicas de péssimo gosto, atrapalhando os estudos dos outros e desafiando a autoridade dos professores. Apenas o último item desta lista me é agradável. De resto, este apenas consumiu o precioso ar e o nobre tempo de profissionais da educação. Durante a exposição das notas do ano, afinal em dezembro essa prática se torna funesta, constatei que este indivíduo não teve um aproveitamento razoável o suficiente para avançar de ano. Quando revelei o fato, ele pediu para falar comigo em particular.


     Começou perguntando se eu conhecia a deus. Como não sou bobo, respondi que nunca tive o prazer. O resto do diálogo reproduzirei conforme lembro:


     - Pois professor, Deus e Jesus operam milagres de várias formas... - Eu o interrompi aqui para  evitar alguma parábola como da ovelha perdida ou uma lenda sobre um gigante sendo derrotado por um franzino.


Eu fora, me tira dessa.
     - Mas Miguel (nome fictício), não quero parecer chato, mas não me interessa nem um pouco o que seu deus faz ou deixa de fazer. O teu problema é comigo.


     - Professor, eu vou passar. Eu sei. Deus vai fazer esse milagre na minha vida... Eu tenho orado por isso... - Interrompo novamente.


     - Miguel, se tu usar o tempo que tem rezado para estudar, tenho certeza que sua chance de ser aprovado nas recuperações aumenta. Mas se ficar assim, está só se distraindo. Pega o caderno de alguém, olha os exercícios, faz eles de novo... - Nisso ele interrompe.


     - Não preciso, professor. Vai acontecer um milagre e eu vou passar.


     Neste momento, abri a questão para o grande público, da seguinte forma: 


     - Supondo que exista Deus, qual seria a ação mais provável deste ser: ajudar o Miguel a passar de ano ou fazer qualquer outra coisa pelas pessoas?


     Todos concordaram que se deus existe, não ajudaria o Miguel. A voz do povo é a voz de Deus, não?


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     - Miguel, seu deus terá que passar por cima de mim. E isso não é justo.


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     O pior é que sei exatamente com o quê estou mexendo. Já estive nessa situação. E foi a melhor coisa que me aconteceu. Afinal, não é justo transferir a sua responsabilidade para outrem. Muito menos alguém que não pode se defender. Prevejo uma decepção catastrófica na vida deste garoto onde ele terá que escolher entre olhar para o sol até ficar cego ou começar a tomar as rédeas da própria vida nas mãos.


     Se tem algo que gosto de fazer é corrigir provas e trabalhos. Penso, a cada questão, na pessoa que a realizou. Apesar de algumas respostas serem previstas em um gabarito, me interessa muito mais como o indivíduo chegou ao resultado. Conhecendo a pessoa, sei dizer se, mesmo um erro de cálculo, merece ser visto como uma evolução. Me considero uma pessoa justa, em relação a isso. Se o deus de Miguel é real, uma de suas características é ser absolutamente justo. Se fizer o milagre acontecer, não seria uma ação digna de justiça. Isso implica no fato de que eu seria mais justo do que esse deus. Logo, eu estou mais próximo da divindade cristã do que este para quem Miguel direciona suas preces.


     Na prova final esperava encontrar um Miguel consciente de que o tempo que perdeu durante o ano foi nocivo ao desenvolvimento deste. Mas vou encontrar um fanático. Infelizmente a ciência, que este ignora, poderia ajudá-lo a tornar-se uma pessoa mais tolerante ao fracasso, palavra que não existe no vocabulário de um religioso.


30 de novembro de 2011

Discernimento


     Gosto muito de um debate. Só complica quando alguma das partes apenas refaz um argumento e o apresenta como se fosse novo. Por isso é difícil conversar muito tempo com proselitistas. É bom pensar e repensar suas ideias, mas não queira que estas sejam as opiniões de outrem. Sim, pode haver um caso onde um conclua que seu raciocínio não é suficientemente abrangente. Em generalizações, é comum. Como "todas as pessoas são superficiais", ignoro todos aqueles que lutam para que, pelo menos, não sejam reconhecidos desta forma. Mas somos ou não todos superficiais?


Livro fantástico.
     Quando se fala que a história é marcada pela luta de diferentes classes sociais, espera-se que o interlocutor compreenda que esta é uma pequena releitura da ideia de história, segundo Marx. Esta última frase é dita na esperança de quem a ouve (ou lê) conheça um pouco da história humana. Já a história humana é a justificativa maior da existência das escolas. Se egressos destas não conseguem compreender o que foi dito e muito menos consegue expressar uma opinião, não sei exatamente qual função a instituição educacional tem na sociedade.


     Durante uma atividade, alguns alunos precisavam, depois de lerem um poema apenas formado por verbos, construírem seus próprios versos. Poucos foram os que não se utilizaram daqueles já expostos no poema introdutório. Se eu fosse o titular da disciplina de língua portuguesa ou filosofia, estaria um tanto envergonhado. O que produzem em matemática é o suficiente para me dar calafrios. Uma demasiada preocupação com a formação humana os torna desrespeitosos e insuficientes. A científica, os automatiza. Por que não encontramos o meio termo?


     Durante um debate, um outro ente se aproximou e procurou explicar que, assim como a teoria de que o universo era repleto de éter tornou-se insustentável até o descobrimento da matéria escura, a ciência logicamente deveria créditos ao ser de existência questionável (e muitas vezes negada com razão). Não consigo encontrar o caminho que a criatura fez para justificar seu criador.


     Reproduzir conteúdo, respostas automáticas ou justificar todas as incertezas com entidades não tangíveis, não é natural. Procurem se esforçar, meditem um pouco mais na forma em que pensa ao invés do que há de escrito em um livro. Quando estiver pronto, ao ler um livro saberá discernir entre literatura científica e fantástica.


21 de novembro de 2011

Eu escolho a liberdade.


     Como sabem, minha preferência por um vestuário alternativo faz com que meu gosto estético seja bastante questionado. Sempre gostei de roupas que beiram o utilitarismo. Estar bem vestido, ao meu ver, é estar confortável. Ainda fundo uma religião onde o sacerdote precisa vestir-se de forma alternativa. Se bem que existem várias, mas nem em todas tenho o acesso aos cofres. Se fosse minha, o cofre seria meu.


     Não tenho aquele problema, comum aos seguidores de religiões monetárias, com o dinheiro da instituição. Não encerrei este capítulo de minha vida por causa de dinheiro. Quer dizer, não só por causa disso. Não consigo permanecer em um lugar onde o dinheiro fala mais alto. Ou seja, não pertenço a este mundo. Assim como significa possibilidades abstratas, não quer dizer que ao pagar por uma aula particular, somos donos do professor. Não mesmo. Assim como se suportamos alguma instituição de caridade, não significa que somos donos desta. Cada um tem seus próprios demônios e respondem aos seus próprios desígnios morais. Não tenho fé em justiça, principalmente se esta vier depois da vida. Se isso é verdadeiro, naturalmente se torna injusta.


     Como sempre fui uma pessoa que procurava os motivos pelos quais as coisas acontecem, e exagerado, acabei por descobrir como muita coisa acontece. Grande parte do que se diz responsabilidade de algum espírito é, na realidade, um bom esquema de informações bastante humano. Tenho conceitos estereotipados de cada pessoa quando revelam sua orientação religiosa, mesmo que adormecidas. Dificilmente erro. Mas reconheço quando alguma pessoa manifesta uma ponta de sinceridade. Não desmereço religião alguma, desde que dê o conforto que a pessoa procura. O que detesto, como já disse, é o proselitismo. Isso é doentio.


     Tornei-me uma espécie de questionador de tradições. Nisso não há instituição que gostaria de me manter, afinal toda instituição prova seu valor na tradição. Hoje quase ninguém faz algo realmente sincero. Por não haver um produto novo no mercado, todos se baseiam no que já foram. No que fizeram no passado. Matemática é uma ciência cruel em relação a isso. É praticamente a religião da lógica. É isso, sou crente na lógica. Apesar disso fazer muito pouco sentido.


     Minha mãe nunca determinou o que eu deveria ser quando crescer. Creio que fui traumatizado ao contrário a fazer qualquer coisa. Ela sempre disse isso, que eu faria qualquer coisa que quisesse. O problema era saber o que queria. Até hoje não acertei, mas também não tenho pressa. A história religiosa de minha mãe é daquelas de escritores de best-sellers de livros com esta temática. Não, realmente é melhor. Outro dia ela, inocentemente, perguntou se eu não gostaria de me tornar padre. Sinceramente? Seria ótimo. Quer desculpa melhor para sair com roupas espalhafatosas e ainda mais ser respeitadíssimo/temido por todos? Bem que eu queria.


     Desculpe. Mas eu não acredito. Apesar de um pouco de descrença seja fundamental para um clérigo (sim, eu sei do que estou falando), não tenho, pelo menos ainda, aquela sede por controle. Prefiro a liberdade. E isso, só através da educação. E tem como libertar a todos?


9 de novembro de 2011

Saudade ou "quando lembra de mim?"


     Não fico lembrando do passado de propósito. Eventualmente ele surge perante aos meus olhos como uma pessoa faz quando vocês dois estão se dirigindo ao caixa do mercado e concorrem educadamente pelo primeiro lugar. Eu julgo que a outra pessoa precisa ir na frente, pois eu geralmente vou em um lugar desses quando não tenho que fazer nada de imediato. Não sei organizar muito bem meu tempo ainda, mas sou jovem, posso aprender um dia. Enquanto penso nesse tipo de coisa, perco a competição de quem chegava na frente para ser atendido. Enquanto espero, observo atentamente quem me superou. Quem foi na frente. Assim acontece com grandes eventos do passado, que correm na minha frente para se livrar logo das bagagens que carrega. E parte dessa conta sou eu quem paga.


Empatia é reconhecer essa expressão.
     Nosso cérebro indexa memórias pelo peso emocional que associamos aos fatos. Dificilmente veremos um filme de temática mais triste e não lembraremos de situações semelhantes que aconteceram conosco. Naturalmente já nos identificamos com alguns personagens e parte do que eles passam, sentimos juntos. Nossa capacidade de trocar de lugar com os indivíduos retratados em qualquer mídia faz com que estas experiências sejam muito mais profundas. Acabamos por sofrer a guerra quando vemos filmes deste tema, amamos e sentimos tudo o que os casais apaixonados do cinema sentem e acabamos por assumir algum lado quando o assunto são dilemas éticos ou morais. Uma história é bem contada quando é fácil esta transferência. Empatia.


     Quando revisitamos algum fragmento de memória é que nos damos conta que eventualmente algum elemento não se encontra. O desespero seguido da sensação de que nada pode ser feito deprime tudo que sentimos neste momento. Mesmo quando temos a oportunidade de nos despedir, quando todos os nossos problemas se resolvem, quando envolvemos emoções não se trata de objetos. Pode ser que um amigo aparentemente sinta falta sua, mas não necessariamente é a sua pessoa. É o que sentíamos na época. Não é saudável tentar reproduzir, pois o quão felizes somos define o sucesso desse tipo de experiência. Se somos realmente felizes hoje, este saudosismo é infeliz. Precisamos é entender como os outros se comportam e realmente reunir os amigos antigos. Mas nunca esperar que estejam da mesma forma, pois não estarão. Nem eu e você somos as mesmas pessoas desde quando não nos encontramos mais.


     Os sentimentos associados dão valor aos personagens de nossa vida. Inclusive os inanimados. Por que se chora ao pensar em um cão falecido? A tristeza vem por essa série de emoções que sentimos e compartilhamos com este indivíduo que não poderão ser mais experimentadas. Pode-se ter outros cães, mas nunca mais aquele em específico. Gosto de pensar que o trabalho torna as pessoas substituíveis mas seus corações são únicos. Posso retribuir tudo que recebi de meus pais aos pais de quem quiser. Apesar disso não fazer diferença aos meus progenitores, pode muito bem proporcionar experiências com as quais compreenderei melhor minha ignorância. E isso deve tornar-me feliz. Conhecerei um pouco mais de mim e posso um dia me tornar uma pessoa melhor.


     Saudade é inevitável. Quantas vezes nos pegamos pensando que se determinada pessoa estivesse próxima, teríamos pelo menos um ombro sincero para chorar? Obviamente estamos todos com uma foice sobre o pescoço o tempo todo mas até quando poderemos nos ver? Já pensou se essa é nossa última noite? Se existe purgatório, que é um terceiro caminho da tradição católica para desmontar o dualismo céu/inferno, só irá para lá pessoas que deixam assuntos inacabados. Que deixam de declarar o quanto sentem coisas mais próximas possível do que outros chamam de amor, ou apenas deixam de dizer que sentirão falta se por um acaso se apartarem. É um lugar onde se esquenta banco e se espera até que o sujeito da nossa não-ação venha. Uma pena que não existe esse tipo de lugar. E é bom saber pois nos obriga a agir hoje.


     Muitos se atarefam o máximo, tomam seus remédios na maior dosagem ou dormem para evitar pensar na possibilidade de serem um pouco mais humanos. O tempo passa e todos nossos elos se partem. Quando vê já é sexta-feira da vida. Se tornou comum não sentir. Agora é moda o coração de metal. Quando fala-se em coração sempre lembro do homem de lata que queria um mas agia como se já o tivesse. Aja!


     Saudade não é ruim. Saudade é saber que há coisas importantes na nossa vida. Ou houveram. E por elas não desistimos. O perigoso é quando ela torna nosso corpo uma estátua que apenas espera. Isso, apesar da semelhança de palavras e conceitos, não é esperança. Quando lembram de mim, o que sentem?


30 de outubro de 2011

Conto: Desalmado


      Ela pegava a criança pela mão que chorava e chamava pela mãe. Iriam para a igreja. Todos que acompanhavam a situação percebiam a força que aquela mulher fazia para arrastar sua criança para a missa. Força que era inversamente proporcional a vontade do pequeno de permanecer na frente de um tal senhor que ouviu em uma história do livro. Ao perguntar o motivo pelo qual precisava ir para a igreja, a que ocupava o papel de mãe respondeu com ignorância. E ignorância é a forma cruel de lidar com perguntas que nem quem as devia responder, sabe como.



     Na igreja, depois do pastor ter alimentado algo chamado alma dos presentes com as tais palavras eternas, o menino perguntou se todas as palavras já não eram eternas por definição. Alguns olharam assustados, afinal palavras eternas eram só as do livro. Apenas no livro eterno. E o garoto gostava mais dos livros de história e dos de colorir que não tinham pretensão alguma de serem eternos.

"Mas eu não durarei para sempre. Não preciso de palavras eternas" disse para si.


     Conforme voltavam para o trailer que moravam, testemunhou outra surra que sua transportadora levava do que foi ensinado a chamar de pai. Este homem grande era ciumento apenas quando bebia. Era infeliz e bebia desde cedo. Não, definitivamente não queria durar para sempre. Se aquele homem tinha alma, talvez sentisse fome pois a dele não era alimentada há anos.

     Não era feliz. E a pior coisa que se pode ter no mundo é uma infância infeliz e sem perspectiva. Um fato irreparável. Pelo resto da vida ouvirá músicas fora de tempo, responderá mal aos sinais de afeto e se preocupará com coisas que não importam verdadeiramente. Se preocupará mais em fugir do hoje, do que sente. Procurará um eterno que o acolha. Mas este menino tinha perspectiva.

     Em outra oportunidade, ao prestar atenção durante a alimentação da alma percebeu que sua barriga não enchia. Nem seu coração, como pensou quando ouviu a resposta sobre sua barriga vazia mesmo depois dos sermões. "Eu não tenho alma" pensou. E seu pensamento deve ter sido lido. Ou deve ter sido alto pois algumas pessoas próximas ouviram. E este pensamento se deu imediatamente depois de um hino. Naquele espaço vazio de som onde apenas o que é natural se ouve.

"Não, meu filho, tu tens alma sim! Todos temos alma."

"Mãe, papai tem alma também?"

"Claro, todas as criaturas têm alma."

     Sabia que era diferente. Nunca foi tão fácil perceber que não pertencia aquele mundo. Definitivamente era um "de fora", como pensou. Era um desalmado. Não precisava alimentá-la nem fingir ter. Era como um amigo imaginário que ninguém precisava saber que não tinha. Entoou como nunca todos os louvores ao amigo imaginário ao qual todos depositavam suas aflições e desejos mal orientados. Mas sabia que era tudo fingimento. E não era difícil. Nem moralmente reprovável, afinal não existe moral antes dos oito. Nem em algumas histórias que tangem a realidade. E então era feliz. Afinal, quem é feliz sabendo que livros de colorir não são eternos?