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11 de dezembro de 2011

Conto: Responsável



     Tudo lhe passava na frente dos olhos. Assim como dizem os livros e filmes que não teve o prazer de apreciar, toda a vida vinha lhe cobrar tributos. Teve a certeza de que havia lugares maravilhosos no, recentemente apresentado, mundo pois apenas em um contraste poderiam ser tão rudes e violentos. Essa maldade toda não pode ser o que há além das montanhas ou do mar. Existia sim uma mão invisível que movia países como peças de um jogo. A forma com que comandava era através da dúvida e do dinheiro.


     Tinha uma filha que havia morrido junto da mãe, as duas abusadas e metralhadas por serem consideradas dele, aquele que ousou se manifestar. Apesar da dor no peito, não conseguia pensar em outra coisa senão nelas. Na dor que sentiram. Ponderou por uns instantes se a felicidade que proporcionavam era recíproca, se os anos de vida delas havia sido suficientemente alegres para que a humilhação e pânico não as deixaram tensas ao atravessar para o outro lado. Intrigante como era exigente, na hora da própria morte pensava se havia sido um bom esposo e pai. Em um momento racional considerou que havia errado em constituir família e ter amado, mas o sorriso das duas espantou qualquer questão. Tê-las feito feliz foi sua felicidade.


     Os colegas estavam furiosos, desde cedo. Dava para ver em seus olhos vermelhos de fogo. Não é todo dia que missionários do mundo moderno começam a cobrar pelos avanços cedidos. Durante a espiral tétrica de queda, pode constatar que todos, inclusive os agressores, hesitaram por aquele instante. Ele via no olhar do melhor amigo o desespero. Cogitou que fosse relacionado com aquela vez que tentaram pescar juntos e não tiveram sucesso, acabaram por ter que comer raízes por mais um tempo. Sentiu-se responsável pela situação, afinal havia pedido a ajuda do amigo. Poderia ser também da vez que a filha pequena do amigo ficou doente e não chegaram no hospital por falta de combustível. Sempre se responsabilizava por tudo e chorou a morte de uma filha duas vezes, esta do amigo querido e semana passada, da filha de sangue. Então percebeu que o desespero era sobre aquele momento. Mas quando toda sua vida passa diante dos olhos, não se sabe mais exatamente qual história vem depois. As experiências mais traumáticas competem para explicar os comportamentos mais extremos.


     Pensou bem e concluiu que até o hospital é proveniente do progresso. Neste momento a dor no peito piora ao lembrar da matriarca da tribo que era ignorada diariamente após a chegada deste progresso. Aquela senhora nunca quis o mal de ninguém, mas parte dos homens de cor estranha que invadiram o seu país diziam que ela era representante direta de algum inimigo. Pobre senhora, ficou só. Como será que está agora? Sentiu-se mal, não só pela perda do equilíbrio e queda, mas por perceber que foi ingênuo quando os homens estranhos venderam a ideia de paraíso, melhor do que seu Éden particular que mantinha em sua comunidade. Se tivesse lido o primeiro capítulo do livro sagrado deles, teria feito a analogia da serpente, teria chamado seu lugar feliz de Éden. Não sabia os nomes, mas sentia-se no paraíso. Até a chegada dos outros. Poderia haver um hospital sem ter que suportar todo o resto?


     As pernas dobram de uma forma estranha, deixaram de procurar a forma mais confortável. Afinal, não há conforto na morte. Olhou novamente para os agentes do progresso, que com suas armas mágicas tentavam remover seu espírito através de um som alto e queimação no peito. O sangue subia pela garganta, cuspiu um pouco, olhou nos olhos de seu algoz e pronunciou suas últimas palavras.


- Eu não sou dessa sua raça.


     Nunca mais teve dúvidas. Nem dinheiro. E por isso não conseguiriam-lhe roubar o espírito.


8 de dezembro de 2011

Vocação ou escravidão?



     Você já deve ter ouvido algo sobre vocação. Independente da orientação filosófica-religiosa, geralmente se trata de uma espécie de "chamado" que o indivíduo "tem" para realizar determinada tarefa. Se dá muita ênfase quando esta tarefa tem ligação direta com os interesses da instituição que ensina esse tipo de coisa. Como uma igreja, quando anuncia o tema, procura despertar jovens para que herdem os trabalhos da mesma.


     Vocação tem uma origem etimológica semelhante ao atual "chamado". Apesar de nem sempre ter alguma ligação, um poço e uma menina que atravessa o televisor, um chamado é basicamente alguém ordenando outrem para determinada posição ou atitude. Como Moisés chamou os hebreus ao deserto, vocação tem essa característica da atitude. É diferente de algum dom que o indivíduo carregue, este está mais para uma disposição maior a determinada área. Um chamado é uma espécie de convite para, muitas vezes, utilizar-se dos dons que se tem. Uma pessoa comunicativa pode se tornar um bom professor ou político, mas pode ter uma vocação para a assistência jurídica. Nem todo dom é ligado de imediato ao chamado.


     E você lê isso e pensa que algo neste texto está quase religioso. E realmente é de propósito. Afinal, o que gostaria de também tratar é o sujeito que executa o chamado. Quem o obedece já sabemos, somos nós (ou os outros). Como disse, dependendo da orientação religiosa, pode ser uma divindade que faz este chamado. Mas a sequência aleatória de fatos da vida podem também realizar vários chamados. E isso é muitas vezes traduzido como se fosse alguma exigência de uma entidade espiritual para legitimar, de forma intangível, sua missão. Uma bobagem que se repete ainda nos dias de hoje. Acredite. Não precisamos transferir nossas responsabilidades e vontades para outrem.


     Outro dia encontrei um antigo colega de escola, enquanto saía da instituição onde completamos o ensino fundamental. Este me pergunta o que eu fazia, eu prontamente respondi que estava ensinando. Eu era professor daquela nossa velha escola. Ele não lembrou de imediato, coisa que eu fiz questão dizer: prometemos um ao outro que seríamos professores. Na época ainda seria de história.  Por alguns anos procurei fazer outras coisas, mas acabei voltando para esta carreira, pois não tenho grandes ambições financeiras e gosto de resolver problemas em conjunto. Nada mais justo. Era isso ou desenvolver para a web, mas não gosto tanto assim de café. Já meu antigo colega é policial militar. Seria alguma espécie de chamado?


     A questão que gostaria de levantar é: somos escravos do chamado, desta vocação? Sinto uma tristeza enorme quando as pessoas deixam transparecer que tiveram um grande conflito contra sua própria vocação mas acabaram cedendo por ser a coisa certa. Como se isso valorizasse o produto.


     Em minha opinião, é uma questão de escolha. Posso ter um dom para o desenho mas com disciplina posso refinar minhas técnicas. Para quem quer escrever é importante ser um bom leitor. É interessante saber como se reproduz para que se evite fazê-lo. Isso é como tratamos um eventual dom, aqueles pontos que estavam sobrando em nossa ficha pessoal. Já uma vocação pode ser sumariamente negada. Dela não somos escravos. E sim de nossas vontades. E isso é uma característica encantadora nos seres humanos: a obstinação de seguir o que quer.


     A vida nos chama o tempo todo. Aceitamos apenas os chamados que mais nos agradam. Lembre quando ouvir o próximo dizer que "tentou fugir" de sua vocação, que este pode estar mentido e realmente estar fugindo daquilo que deveria estar fazendo.


7 de dezembro de 2011

Estou contra deus



     Como já devem ter percebido, sou professor de matemática para um público bastante restrito. A idade média destes alunos é aproximadamente dez anos. Como matemática é a primeira disciplina estritamente científica que se tem no currículo, geralmente causa um certo desconforto para jovens mentes. Afinal, desenhar e pintar é importante, escrever sobre como foram as férias também, mas a primeira vez em que alguém precisa provar algo que registra, é nas aulas desta ciência. Parte da vida de um matemático é desafios. A vida do cientista é recheada de desafios. Adquiri mais um nesta tarde.


Firme em Deus, ele me ajuda!
     Grande parte da população que está sendo irradiada pela matemática com minha perspectiva não consegue assimilar os conceitos debatidos. Indícios responsabilizam os próprios alunos dessa falta de retenção dos assuntos, afinal as notas mais baixas pertencem aos que menos argumentam durante as aulas. A diferença apaixonante entre religião e ciência é que a última exige que suas idéias sejam testadas e, se houver falhas nos testes, contestadas. Já religião é como aquelas comidas congeladas, apenas aperte uns botões e sirva-se. Não pergunte o que foi aquilo que desceu pela sua garganta. Apenas coma. Em minhas aulas procuro deixar isso bem claro: qualquer argumento pode e deve ser questionado até ser provado.


     Um aluno em especial, passou o ano tecendo intrigas entre os colegas, comandando corais com músicas de péssimo gosto, atrapalhando os estudos dos outros e desafiando a autoridade dos professores. Apenas o último item desta lista me é agradável. De resto, este apenas consumiu o precioso ar e o nobre tempo de profissionais da educação. Durante a exposição das notas do ano, afinal em dezembro essa prática se torna funesta, constatei que este indivíduo não teve um aproveitamento razoável o suficiente para avançar de ano. Quando revelei o fato, ele pediu para falar comigo em particular.


     Começou perguntando se eu conhecia a deus. Como não sou bobo, respondi que nunca tive o prazer. O resto do diálogo reproduzirei conforme lembro:


     - Pois professor, Deus e Jesus operam milagres de várias formas... - Eu o interrompi aqui para  evitar alguma parábola como da ovelha perdida ou uma lenda sobre um gigante sendo derrotado por um franzino.


Eu fora, me tira dessa.
     - Mas Miguel (nome fictício), não quero parecer chato, mas não me interessa nem um pouco o que seu deus faz ou deixa de fazer. O teu problema é comigo.


     - Professor, eu vou passar. Eu sei. Deus vai fazer esse milagre na minha vida... Eu tenho orado por isso... - Interrompo novamente.


     - Miguel, se tu usar o tempo que tem rezado para estudar, tenho certeza que sua chance de ser aprovado nas recuperações aumenta. Mas se ficar assim, está só se distraindo. Pega o caderno de alguém, olha os exercícios, faz eles de novo... - Nisso ele interrompe.


     - Não preciso, professor. Vai acontecer um milagre e eu vou passar.


     Neste momento, abri a questão para o grande público, da seguinte forma: 


     - Supondo que exista Deus, qual seria a ação mais provável deste ser: ajudar o Miguel a passar de ano ou fazer qualquer outra coisa pelas pessoas?


     Todos concordaram que se deus existe, não ajudaria o Miguel. A voz do povo é a voz de Deus, não?


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     - Miguel, seu deus terá que passar por cima de mim. E isso não é justo.


     - Professor, você não sabe com o quê está mexendo.


     O pior é que sei exatamente com o quê estou mexendo. Já estive nessa situação. E foi a melhor coisa que me aconteceu. Afinal, não é justo transferir a sua responsabilidade para outrem. Muito menos alguém que não pode se defender. Prevejo uma decepção catastrófica na vida deste garoto onde ele terá que escolher entre olhar para o sol até ficar cego ou começar a tomar as rédeas da própria vida nas mãos.


     Se tem algo que gosto de fazer é corrigir provas e trabalhos. Penso, a cada questão, na pessoa que a realizou. Apesar de algumas respostas serem previstas em um gabarito, me interessa muito mais como o indivíduo chegou ao resultado. Conhecendo a pessoa, sei dizer se, mesmo um erro de cálculo, merece ser visto como uma evolução. Me considero uma pessoa justa, em relação a isso. Se o deus de Miguel é real, uma de suas características é ser absolutamente justo. Se fizer o milagre acontecer, não seria uma ação digna de justiça. Isso implica no fato de que eu seria mais justo do que esse deus. Logo, eu estou mais próximo da divindade cristã do que este para quem Miguel direciona suas preces.


     Na prova final esperava encontrar um Miguel consciente de que o tempo que perdeu durante o ano foi nocivo ao desenvolvimento deste. Mas vou encontrar um fanático. Infelizmente a ciência, que este ignora, poderia ajudá-lo a tornar-se uma pessoa mais tolerante ao fracasso, palavra que não existe no vocabulário de um religioso.


3 de dezembro de 2011

Inconveniente, eu?




     Sou inconveniente. E não sou a verdade. Muito menos a vida ou o caminho. Apenas um homem. Um homem inconveniente. Ouvi três vezes em um curto espaço de tempo que carrego esta característica. E não é aquele tipo de inconveniente que conta piadas ruins ou que precisa ser carregado para casa quando a noite acaba. São comentários sobre o comportamento humano, perguntas indiscretas e eventualmente brinco com o que os outros estão pensando. Sim, eu leio mentes. Pelo menos parece.


     Outro dia, uma colega de trabalho, que não estava em um auditório meu, comprou uma torta para degustação enquanto a futura diretora da escola onde trabalho se apresentasse. Sucumbi ao humor questionável quando sugeri que o cenário tivesse sido arquitetado para que todos fossem favoráveis ao grupo apresentado. Levantei a hipótese cômica da compra de votos de uma eleição com apenas um conjunto candidato. Parece que mais de uma pessoa havia pensado nisso, mas apenas eu falei. E fui propositalmente mal interpretado.


     Eu sempre gostei de gerar interpretações múltiplas. Sempre o fiz e creio que se há algo que eu faça bem, é isto. Mal interpretação é comum em um meio social e comunicativo. Assim como deformação da realidade em um mundo onde quase ninguém pergunta pelas fontes das informações recebidas. Ou procura saber dos sujeitos envolvidos. Nisso me torno inconveniente, pois pergunto tudo. Confiro cada fragmento das histórias que me contam em cada esquina. E quando vejo alguém fazendo o mesmo, sinto que o mundo não está perdido. Por mais que o assunto seja superficial.


     Inconveniente, hoje, é quem fala o que pensa. E mais grave, é dilacerado moralmente por aqueles que pensam semelhante. Não há a necessidade de um adversário, o diabo, quando a alma humana consegue ser muito pior do que qualquer ser que habita alguma profundeza. Inclusive a transferência das nossas responsabilidades para entidades invisíveis prova que somos cruéis em essência.


     Inconveniente é quem diz esse tipo de coisa. Quem nos desmascara, quem rouba nossos demônios. Exorcismo é quando alguém fala a verdade em um mundo onde figurantes mentem.


     Sim, eu preciso aprender a não dizer tudo que sei. Por mais que seja contraditório ao nome desta página, Rachid precisa deixar de falar o que sabe.


28 de novembro de 2011

Inércia ou "o que te move?"



     Me inscrevi em um concurso. Provavelmente farei muitos ainda. Não tenho uma auto estima razoável o suficiente para dizer que tenho certeza de algo. A única coisa que sei é: não quero fazer aquilo o resto de minha vida, como pensam muitos.


     O profissional chamado concursado é um indivíduo que permanece ligado ao órgão público independente do sistema partidário temporário instalado. Paralelamente ocorre uma aura dourada da estabilidade, como se fosse impossível exonerar um servidor público.


     De tudo isso, o único prazer que teria em ser funcionário público provavelmente seria de orientação política. Afinal, suportar uma série de acordos diplomáticos com energúmenos por vantagens políticas não se faz necessário quando se está afastado deste meio. Ou seja, gostaria de exercer uma profissão distante da política.


     Ouvi hoje de um digníssimo colega de profissão, que nunca deixou de transparecer a opinião sobre seus semelhantes, uma frase que colabora com minha ideia aqui. Da incapacidade da maioria de dedicar-se e mudar. O que vem de encontro com o que já presenciei, da incapacidade de parte da população ter prazer em aprender. Com isso, muitos professores concursados fazem o máximo de graduações para galgarem o topo da faixa salarial.


     Dinheiro não fala. Mas, infelizmente, controla muitos profissionais. Como ouvi outro dia, não precisamos fazer nada totalmente por ideal assim como não fazer totalmente por dinheiro. O problema é que a massa se acomoda ao perceber que já ganha o suficiente. Problema nisso? Sim. Não era para ser essa a única motivação.


     O que me move? A dúvida.


16 de novembro de 2011

Todos temos Tourette?


      Lembro que em determinado momento de minha vida acadêmica, deparei-me com um livro especial, um conjunto de leis da língua portuguesa. Chamado de "gramática", este codex abriga a construção e evolução de nossa língua-mãe. Dentre todas as características lá expostas, a que capturou minha atenção por muito mais tempo foi a morfologia, fragmento estuda a formação das palavras. Assim como o solo, algumas palavras nada mais são do que variações do que as suas antecessoras  outras, totalmente novas, foram formadas por algumas já existentes. Dentre essas, encontrei-me absorto com os radicais. Procurava intensamente por tabelas com radicais em todos os livros existentes na biblioteca escolar. Gostaria de ressaltar que isso tudo aconteceu em uma época antes da minha inclusão digital e antes do Google.

     Seria um equívoco acreditar que o nível da argumentação hoje em dia tenha sido rebaixado perante ao que se fazia no passado. Precisamos lembrar que muitas das pessoas que hoje estão sendo ouvidas, dificilmente teriam voz no passado. As escolas hoje estão cheias de pessoas que se tivessem nascido quarenta anos antes, não teriam a mesma oportunidade. O ponto que gostaria de ressaltar é que se hoje temos uma demanda maior, não podemos deixar a qualidade pagar o preço. Devemos ensinar e exigir dos outros enquanto tentam provar alguma coisa, convencer-nos de algo, que sejam lógicos e não apelem para palavras de baixo calão. Não são as gírias que deformam o argumento, é o palavreado chulo que o desmerece. Eu não permaneço em um debate onde um crê que apenas por ter dito alguma palavra que refere-se ao órgão sexual ou aos dejetos, como se fosse parte de seu argumento. Uma coisa é dar ênfase ao que se fala. Outra é não ter o que falar e "enfiar um palavrão".


     Brincava com um outro menino, um pouco mais velho que eu, de inventar histórias. E as encenava com bonecos de ação. Enquanto as brincadeiras dos outros colegas de escola eram de temática bélica e/ou esportiva, a minha era simular situações e prever reações. Nisso os radicais serviam de uma forma espetacular, afinal grande parte dos meus personagens carregavam em seus nomes uma palavra que resumia suas ações. Tanatus, Hipnos, Marte, Minerva, enfim, muitos destes nomes serviam como bandeiras indicando o comportamento e eventual relacionamento entre estes. Assim me apaixonei pelas figuras mitológicas e suas influências etimológicas. Isso mesmo, pegamos emprestado certas idéias que foram tornadas em palavras para enriquecer nosso argumento. Para engrossar nossa tese. Para sustentar nossa fala. E existem muitas delas e surgem a todo instante de todas as partes.

     Ainda na escola descobri que raízes gregas e romanas formam grande parte das palavras de cunho científico. E em um momento, da mesma forma que Gauss sentiu-se quando deduziu a soma de uma sequência aritmética finita, deduzi que o ato de falar palavrões, por serem em sua maioria relacionados aos órgãos sexuais, cópula ou excrementos, deveria ser coprolalia. Copro de excrementos e lalia de fala. Senti-me um grande linguista, que havia descoberto as Américas. Até que deparei-me com o termo em um livro de nível superior ao qual eu era acostumado. É óbvio, livros do ensino fundamental tratam os alunos como se fossem intelectualmente inferiores. Apesar de agirem como, não são. Logo, não havia estes exemplos naqueles livros. Mas não fiquei infeliz, pelo contrário. Entendi como a coisa funciona de forma a poder concordar com a morfologia.

     Depois de um debate acalorado (todo e qualquer debate no ensino fundamental parece carregar esta característica), percebi que os dois lados, ao perderem grande parte de seus argumentos, começavam a ofender os adversários. Eventualmente subiam ao púlpito improvisado apenas para expor toda a educação que não tinham. Caímos ao nível mais baixo da argumentação, o argumentum ad hominem, onde passamos a questionar o sujeito no lugar do que ele fala. Nisso, surgem questionamentos desde as orientações sexuais dos envolvidos, a capacidade dos mesmos de executar certas tarefas que antepassados faziam sem grandes preocupações, questionam as profissões e capacidades de reprodução dos progenitores do adversário. Permeando estas injúrias e difamações, muita coprolalia pesada. Até o fato de associarem esta prática a um eventual vocabulário "sujo" demonstra a natureza da prática.

     Palavrões se tornaram interjeições. E para muitos, argumentos. É considerado agradável presenciar crianças pequenas falando de coisas que nem precisavam ter conhecimento sobre. Não sou moralista, apenas penso que não gostaria que um filho meu fosse confundido com uma pessoa diagnosticada com a Síndrome de Tourette sem necessidade. Essa síndrome é caracterizada pelos "tics" nervosos e eventual coprolalia. Por outro lado, podemos estar criando um mundo onde estes se sintam incluídos de fato. Um mundo sem argumentos, apenas isso.

13 de novembro de 2011

Conto: Amigo imaginário.


     Não era difícil entender que queriam falar comigo. Difícil era entender o motivo pelo qual não entendiam minhas respostas. Você sabe, não? Falei de você para eles, mas não acreditaram. Por que não acreditam em você? Disseram que era imaginário mas minha mente não é tão boa assim. É mais fácil eu ser o imaginário. E não sou? O que prova que sou real pode ser muito bem usado contra mim. Eles não param quando quero. Estou farto de comer e dormir. Mas não querem me ouvir. Imaginário? Você é muito mais real do que eu.


     Qual o problema em não querer sair? Tudo que preciso tenho aqui dentro: eu, você, comida, e você. Querem que eu interaja com outras crianças, mas nem sei o que isso significa. Se era para brincar com eles, não consigo. Eles não me entendem. Prefiro brincar com você. Estamos em uma sintonia que apenas nós dois entendemos. Quando sou o pirata, você se torna o mar, os peixes, o mundo... Para quê precisaria de outras crianças? Elas nem me entendem. Nem querem brincar comigo. Não reclamo, também não quero brincar com elas. Apenas contigo.


     Doutor Alcides, como chamou meu irmão, pediu que eu desenhasse em um quadro. Não sei o que ele queria. Apenas ouvi o que você disse, e fiz o rio daquela história que ouvimos. Não sei o motivo que levou o doutor a ficar bravo. Não pode ter sido o fato que aquilo era um rio vermelho. Afinal rios vermelhos, não existem nesse mundo, apenas no nosso. Ah, como eu queria ser o imaginário. Como eu tenho um pensamento limitado... Deveria ter pintado de verde.


     Começaram a me dar umas balas de gosto estranho. Dividi todas elas contigo, mas tu é mais esperto do que eu, não as comeu. Não sabe como elas fazem mal. Bem lembrado, vou tirá-las do seu pote secreto, não quero que as coma. Não fique triste comigo. Eu juro que tentei não deixar tudo aquilo acontecer. Não gosto de chá, mas tomo todas as vezes que me dão. Sinto que é a parte mais próxima de me entenderem que todos nesta casa chegam. Não quero a atenção deles, mas preciso. Não sei mais quem sou. Você é meu único amigo.


     Querido, eu gostaria de poder te dizer pessoalmente, mas desde quando os doces mudaram de nome, quando me obrigaram a ir em um lugar barulhento e cheio de gente, quando exigiam que eu ficasse horas e mais horas escrevendo coisas sem sentido, desejei que tivesse sido eu quem sumiu. Desejei profundamente que eu fosse o imaginário. E desde então tenho sido cada vez mais infeliz. Principalmente agora, que todos que eu amo, me abandonaram. Primeiro você e depois meu tio. Ah, desculpe, deixe eu esclarecer. Eu lhe abandonei. Juro que não tomo mais aqueles remédios. Só se você prometer aparecer. Naquele lugar ninguém me entende.


     Aquela vez que você sumiu, logo depois de nosso experimento com a tomada e aqueles fios que achamos no porão, foram os dias mais tristes da minha vida. Pensando bem, estamos quites, afinal cada um deixou o outro pelo menos uma vez. Pode voltar já. Eu fiquei realmente triste quando vi todos chorando ao pé da cama no hospital. Todos achavam que eu havia tentado deixar minha própria vida... Deixar ela para quem? Será que alguém estava pensando em tomar a minha e deixar a sua própria vaga? Eu nunca. Se tem algo a ver com os fios que queimaram, eu não sei como, mas posso encontrar outros para repor.


     Dizem que meu caso é complexo. Complexo tudo é na vida. Pelo menos na minha tudo tem sido. Não consigo me relacionar bem com meus irmãos, dizem que tenho os dois pés fora da realidade. Nem eu sei o que isso significa, apenas queria fazer parte do que eles são. Tentaram me incluir várias vezes, talvez o erro seja meu, de não querer. Parte de mim quer, outra não. Tentam traduzir o que eu digo uns para os outros, eu os ouço durante a noite conversando sobre o que fazer comigo. Eles têm medos absurdos. Eles temem o fato de que eu tenha medo do mundo real. Eu não tenho medo, este mundo me é muito bem conhecido. Só que não faço parte dele.


     Ah, esqueça. Acabei de ver que você esteve o tempo todo dormindo embaixo da escada. Esqueça tudo que eu disse. Vamos brincar de esquimós, no círculo polar? Eu pego o cobertor para fazer o iglu. Mas de tudo isso, quero que saiba que nunca vou me separar de você.


24 de outubro de 2011

Tenho o direito de ser preconceituoso.


     Há quem diga que preconceito é ruim. Mas toda nossa psicologia evoluiu de tal forma que não podemos descartar aquilo que o indivíduo sabe para poder ensiná-lo. Ou até para descobrir os motivos pelos quais não lida bem com a sexualidade dos outros. Não há o que justifique um comportamento primitivo. Podemos até explicar e entender sua origem e objetivo. Nosso cérebro é uma máquina de reconhecer padrões e organizá-los conforme características semelhantes. Mas não podemos tornar justo uma ação digna da idade da pedra. Preconceito apenas é válido quando ocupa lugar do conceito que ainda está para ser definido.

Tudo junto e misturado.
     Presencio diversos comportamentos inadequados ao dia. Afinal, a faixa de idade de meus alunos ainda é da fase adequação ao meio social. Em parte se ignora algumas ações pelo chamado "conjunto da obra". Em outros momentos é necessário parar tudo e explicar o motivo pelo qual um colega não é incapaz ou precisa ser infeliz por ser diferente.

     Outro dia eu estava trabalhando com figuras geométricas em um papel marrom que consigo gratuitamente na escola. Usava uma caneta colorida hidrocor. Como errei o papel e acabei fazendo um risco na mão que segurava o papel, resolvi terminar a arte com uma carinha feliz. Um aluno, afrodescendente, pediu-me que eu fizesse o mesmo em sua mão. Obviamente, apesar de ter feito os traços, nenhum deles resistiu ao tom de pele deste. Mas ele não ficou triste, afinal um rosto sorrindo em sua mão ficou. Transcrevo agora um curto diálogo que sucedeu este fato:

Garoto T: que pena, nem ficou o desenho.
Garota H: que isso, cara, deixa de ser preconceituoso, pobrezinho do guri.


     Nisso percebemos muitos conceitos que precisam ser trabalhados nessas crianças. Afinal, talvez nem exista intenção de ofender na fala de T. Mas, por conhecer H, saber de parte do que já passou, ela não estava querendo ofender meu aluno afrodescendente. Ela estava defendendo uma família (a dela) que sofreu muito por serem descendentes dos poucos escravos que existiram na região. Ela estava tentando protegê-lo e, para os olhos dos adultos, foi preconceituosa. Afinal, o que é mesmo isso? Foi certa esta atitude?


     Preconceito é um direito. Assim como a pessoa tem o direito de ser ignorante. O que não pode ser aceito é a intolerância. Apesar da pessoa ter seu coração duro perante aos fatos do mundo ela não pode agir de forma a ignorar nossos deveres como sociedade. Não é para isso que estamos todos aqui? E não é como "introdução ao meio social" que existe a escola? Difícil é para alguém com cardioesclerose ser flexível o suficiente para absorver novas informações e rever seus conceitos. Mas se não quer ser, não é obrigado. Só não haja como se estivesse certo.