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22 de novembro de 2011

Da expressão facial



     Fui ao médico hoje e tive algumas notícias ruins e uma boa. A boa é que minha capacidade de expressar o que sinto através da flexão muscular do meu rosto. Durante uma das explicações da minha nova prática alimentar, a nutricionista curvou-se, como se aliviasse a tensão, fez uma careta de dúvida e disse:


     - Você não está motivado, não é?


     Ela disse isso duas vezes. Mesmo eu explicando minha posição em relação ao caso. Como eu havia dito, não estava motivado nem desmotivado. Estava neutro. Aliás, estou neutro. Sempre fui assim neste assunto. Apesar de tudo, relembrei minha capacidade facial de não transparecer ideia alguma. Neste caso, a profissional da saúde interpretou como se eu fosse um de seus costumeiros clientes. Um obeso com aversão aos desígnios nutricionais.


     Não tenho problema algum com reeducação alimentar. Pelo contrário, sou muito favorável. O que me impediu a vida toda de fazê-lo é a minha incapacidade de manter alguma rotina por muito tempo. E meu relógio biológico está desregulado faz tempo.


     Não a culpo por ter sido tão descrente em minha atitude caótica/neutra. Afinal, se é o comum, nem todos aqueles que iniciam o processo chegam a um ponto saudável. Quando as dores encerram, encerra-se a batalha contra as causas.


     Mas preciso fazer isso hoje. Gostaria de ter uns anos a mais para me estressar com meu android. Quer dizer...


18 de novembro de 2011

Um transtorno obsessivo coletivo.


     Como não tenho posses, preciso recorrer ao Sistema Único de Saúde sempre que preciso de atendimento médico. Não reclamo do SUS pois sempre fui muito bem atendido. O que me impressiona e é uma prática comum do povo que utiliza o serviço. Uma característica em comum aos bancos, correios e outras instituições de acesso público. As filas.


     Comportamento de manada é como chamamos aquele curioso movimento de animais em conjunto. É muito bonito ver aquele conjunto de zebras correndo ao menor sinal de ameaça. É um mar branco e preto. Parte de nossa infância foi triste por causa dos efeitos de um movimento destes. Um fragmento do conhecimento humano tem como objeto de estudo o comportamento coletivo dos seres. Inclusive o nosso comportamento coletivo.


     Enquanto eu crescia, era necessário ir ao posto de saúde as cinco da manhã para garantir a consulta. Lembro que torci o pulso e a espera na fila resolveu o problema. As filas eram inevitáveis. E enormes. Principalmente quando se está com dor.


      Durante um período não era preciso acordar as cinco da manhã e enfrentar uma fila no frio para garantir atendimento médico. Era apenas apresentar-se no posto de saúde durante o período da manhã que era devidamente marcada uma consulta. O posto abre as oito horas. As pessoas iam para lá as cinco da manhã, passavam frio e faziam fila.


     Todas as formas existentes de organização de espaços para evitar formação de filas são burladas. Somos obcecados por filas. Gostamos dessa sensação de poder em estar na frente de outrem. E admirar quem chegou minutos mais cedo. Admirável mundo novo.


     Filas, acordar cedo para chegar primeiro, passar frio sem necessidade. Sofrimento coletivo. Obviamente o atendimento voltou ao método anterior, por ordem de chegada. O que me obrigou hoje a  praticamente não dormir. Boa noite, transtornados.